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A internet deu errado? Para Tim Berners-Lee, ainda dá tempo de consertar

A internet deu errado? Para Tim Berners-Lee, ainda dá tempo de consertar

Tim Berners-Lee, arquiteto da World Wide Web, tem repetido em entrevistas recentes — inclusive em janeiro de 2026 — uma frase que soa ao mesmo tempo como diagnóstico e como chamado à ação: “Ainda não é tarde para consertar a internet”.

Ele não está falando de nostalgia por uma web romântica dos anos 90.

Está falando de uma batalha em curso pela alma da rede.

O que ele vê hoje não é o fracasso da tecnologia que inventou.

É o desvio estrutural: uma infraestrutura pensada para ser aberta, colaborativa e sem dono central transformou-se em um ecossistema dominado por poucas entidades que controlam dados, identidade e fluxo de informação.

O erro não está no protocolo HTTP ou no HTML.

Está na captura econômica e política que veio depois.

Centralização disfarçada de conveniência

A web moderna simula liberdade na superfície.

Você clica, posta, compartilha, curte.

Mas o backend revela outra realidade: poucas empresas decidem o que você vê, o que é monetizado, quem é amplificado e quem é silenciado.

Berners-Lee descreve isso com clareza cirúrgica: o usuário não “usa” a internet.

Ele opera dentro de permissões concedidas por plataformas privadas.

Sua identidade digital, seu histórico comportamental, suas conexões sociais — tudo isso virou ativo econômico extraído em escala industrial.

Os sintomas são conhecidos, mas vale lembrar que não são bugs.

São features de um modelo que premia:

• Tempo de tela prolongado (retenção acima de tudo).

• Polarização e engajamento emocional (algoritmos que surfam na dopamina e na raiva).

• Vigilância como custo padrão de acesso “gratuito”.

Nada disso era inevitável.

Era apenas altamente lucrativo.

A saída técnica existe — e tem nome: Solid

Desde meados dos anos 2010, Berners-Lee investe energia no projeto Solid (Social Linked Data), hoje sob stewardship do Open Data Institute e com evolução contínua via Inrupt.

A lógica é inversa à atual:

• Os dados não moram nos servidores da plataforma.

• Moram em “pods” pessoais controlados pelo usuário — repositórios privados que o indivíduo hospeda ou delega com regras claras.

Aplicativos e serviços precisam pedir permissão para acessar partes específicas desses pods.

O fluxo vira: em vez de você ir até o dado da plataforma, o dado vem até o aplicativo — sob suas condições.

Isso resolve, em teoria:

• Portabilidade real de identidade (você não “é” sua conta do X ou do Google).

• Controle granular sobre privacidade.

• Interoperabilidade forçada entre serviços (adeus silos).

O Solid Symposium 2026, marcado para abril/maio em Londres, sinaliza que o ecossistema técnico segue vivo e em construção.

O que ninguém discute abertamente: consertar dói economicamente

Aqui entra o ponto mais incômodo da análise de Berners-Lee — e da nossa própria avaliação técnica.

As soluções existem no plano protocolar e arquitetural.

O bloqueio não é de código.

É de incentivos alinhados.

Consertar a web na prática significa:

• Reduzir o valor de mercado de modelos baseados em vigilância publicitária.

• Diminuir o poder de gatekeepers que lucram com a concentração.

• Confrontar usuários que trocam privacidade por conveniência “gratuita”.

• Enfrentar governos que se beneficiam (ou fingem combater) o caos informacional.

É uma questão de governança global, regulação antitruste de fato efetiva e, principalmente, vontade política de mexer em estruturas que já se tornaram parte do establishment digital.

Análise da equipe PixBugTech

Berners-Lee não é ingênuo.

Sua insistência em dizer “ainda dá tempo” não ignora a inércia.

Ela reconhece que a web nasceu com princípios que ainda são tecnicamente viáveis — e que abandoná-los de vez seria a verdadeira derrota.

O futuro não depende de uma killer app descentralizada que magicamente substitua tudo.

Depende de recuperar o que já estava no design original: dados sob soberania individual, protocolos acima de plataformas, colaboração acima de extração.

A pergunta que fica no ar — e que ele mesmo deixa pairando — é incômoda:

quem lucra com o sistema atual vai permitir que ele seja consertado?

Porque, no fundo, essa não é mais uma questão só de tecnologia.

É de poder.

E poder, como sabemos, raramente se descentraliza por bondade.