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Arthur Hayes prevê excesso de data centers e colapso do boom de IA mas a tese tem buracos

O enorme ciclo de investimentos criado pela inteligência artificial pode acabar produzindo uma consequência paradoxal: tanta infraestrutura de computação que GPUs e capacidade de data centers deixarão de ser recursos escassos e passarão a ser abundantes justamente depois de investidores terem comprometido trilhões de dólares para construí-los.
Essa é a aposta de Arthur Hayes, cofundador e ex-CEO da BitMEX e atualmente responsável pela gestora de criptoativos Maelstrom. Em declarações durante um evento para investidores em Singapura, Hayes afirmou que a indústria estaria desperdiçando trilhões de dólares na expansão da infraestrutura destinada à inteligência artificial.
Sua previsão não termina em servidores ociosos.
Hayes acredita que a combinação de capacidade excessiva, empresas de IA incapazes de gerar caixa suficiente e dívidas acumuladas pelo ecossistema pode culminar em uma crise entre o fim de 2027 e 2028. Depois viria, segundo ele, um resgate ou nova expansão de liquidez no sistema financeiro. Bitcoin e outros criptoativos seriam beneficiados.
É uma narrativa sedutora. Também mistura três hipóteses diferentes como se fossem uma única consequência inevitável.
O problema não é imaginar data centers demais
O primeiro pedaço da tese de Hayes merece atenção.
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma corrida por modelos e transformou-se em uma gigantesca corrida por infraestrutura física. Chips avançados, memória, redes ópticas, transformadores, terrenos, sistemas de refrigeração, usinas, linhas de transmissão e prédios inteiros precisam estar disponíveis antes que o próximo modelo seja treinado ou que milhões de usuários façam uma pergunta a um chatbot.
E esses investimentos são feitos antecipadamente.
Um data center que começa a ser construído hoje não conhece com precisão a demanda que encontrará quando entrar em operação. Tampouco sabe quais GPUs serão economicamente competitivas, qual arquitetura de modelo dominará o mercado ou quanto custará executar uma determinada tarefa daqui a dois anos.
Essa diferença entre o ciclo de construção da infraestrutura e a velocidade da evolução tecnológica cria um risco peculiar.
É perfeitamente possível construir uma instalação pensando em determinado cenário econômico e descobrir, na inauguração, que modelos menores fazem o mesmo trabalho usando menos computação, que chips posteriores oferecem desempenho muito maior por watt ou que a demanda por determinado serviço simplesmente não cresceu como previsto.
Hayes aposta que isso acontecerá em escala gigantesca.
O precedente histórico realmente existe
Há precedentes para essa dinâmica.
Durante a expansão da internet no final dos anos 1990, empresas investiram enormes quantias em redes de fibra óptica acreditando em um crescimento explosivo do tráfego. A bolha das empresas de internet estourou, várias companhias desapareceram e parte daquela capacidade ficou ociosa.
Mas a fibra não desapareceu.
A infraestrutura construída durante o excesso ajudou posteriormente a reduzir drasticamente o custo de transmissão de dados e sustentou uma nova geração de serviços digitais.
Esse detalhe é importante porque uma bolha financeira e uma tecnologia inútil são coisas completamente diferentes.
Uma indústria pode errar violentamente quanto ao preço e ao momento de um investimento e, ainda assim, construir uma infraestrutura extremamente valiosa para a sociedade.
Se algo semelhante ocorrer com a IA, o grande legado de uma eventual correção talvez seja exatamente aquilo que Hayes prevê: computação abundante e muito mais barata.
Computação barata poderia mudar novamente a inteligência artificial
Hoje, capacidade computacional continua sendo um dos principais custos para desenvolver e operar modelos avançados.
Se centenas de bilhões de dólares em GPUs e data centers entrarem no mercado enquanto a oferta ultrapassa temporariamente a demanda, a pressão sobre preços pode ser enorme.
Nesse cenário, uma startup que hoje não consegue competir com gigantes porque não possui acesso econômico a milhares de aceleradores poderia encontrar capacidade ociosa disponível por uma fração do preço anterior.
Isso produziria uma segunda onda.
A primeira corrida da inteligência artificial favoreceu quem possuía capital para comprar chips. Uma eventual era de excesso de computação poderia favorecer quem soubesse utilizá-los melhor.
Modelos especializados, serviços locais, robótica, pesquisa científica, simulação, produção audiovisual, agentes autônomos e milhares de aplicações que atualmente não fecham economicamente poderiam tornar-se viáveis.
O estouro de uma bolha de infraestrutura, portanto, não significaria necessariamente o fim do boom de IA. Poderia simplesmente transferir valor de quem construiu a infraestrutura para quem a utiliza.
E talvez este seja o ponto mais interessante da previsão de Hayes.
O salto mais arriscado da tese começa depois do eventual colapso
Dizer que pode existir excesso de capacidade é uma coisa.
Dizer que esse excesso provocará uma crise suficientemente grande para obrigar governos ou bancos centrais a resgatar o setor é outra.
E concluir que esse resgate fará Bitcoin subir é uma terceira hipótese.
Não existe uma ligação automática entre essas etapas.
Empresas podem quebrar. Data centers podem ser vendidos com desconto. Credores podem assumir ativos. Acionistas podem perder dinheiro. Projetos podem ser cancelados e empresas maiores podem comprar infraestrutura de concorrentes fragilizados.
Tudo isso pode acontecer sem um resgate sistêmico.
A bolha das empresas de internet, por exemplo, destruiu enormes quantidades de valor financeiro sem produzir um programa público destinado a salvar todas as companhias de tecnologia afetadas.
Para que a previsão de Hayes se complete, o financiamento da inteligência artificial teria de adquirir importância suficiente dentro do sistema financeiro para transformar inadimplências privadas em risco sistêmico.
Esse é um cenário possível.
Ainda não é uma conclusão.
A dívida está entrando no centro da discussão
Há, contudo, uma mudança importante ocorrendo no financiamento da IA.
Durante os primeiros anos da corrida, boa parte da infraestrutura era financiada pelas gigantes de tecnologia, empresas com negócios altamente lucrativos e dezenas de bilhões de dólares em geração de caixa.
O ecossistema está ficando mais complexo.
Operadoras de data centers, fornecedores de infraestrutura, empresas de energia, fabricantes de equipamentos e estruturas financeiras especializadas passaram a participar de projetos cada vez maiores.
Isso significa que o risco não está apenas no balanço de uma Microsoft, Amazon, Alphabet ou Meta.
Ele pode estar distribuído entre bancos, fundos de crédito, investidores institucionais, empresas de infraestrutura e veículos financeiros criados especificamente para construir capacidade computacional.
Quanto maior essa cadeia, mais importante se torna descobrir uma pergunta aparentemente simples:
quem está assumindo o risco caso a demanda prevista não apareça?
É provavelmente essa, e não o número de GPUs compradas, a variável que melhor indicará se o boom de IA está apenas caro ou se está se tornando financeiramente perigoso.
Existe também um cenário em que Hayes esteja completamente errado
Há uma possibilidade que a tese pessimista precisa reconhecer.
A demanda pode simplesmente continuar crescendo.
Novos modelos podem consumir mais computação. Aplicações empresariais podem se espalhar. Vídeo gerado por IA, robótica, veículos autônomos, pesquisa científica e agentes capazes de executar tarefas durante horas ou dias podem criar cargas computacionais muito maiores do que as atuais.
Existe ainda um fenômeno econômico particularmente inconveniente para previsões de escassez ou excesso: quando uma tecnologia fica mais eficiente e barata, seu consumo total pode aumentar em vez de diminuir.
Se executar inteligência artificial custar dez vezes menos, talvez empresas não gastem dez vezes menos.
Talvez executem cem vezes mais tarefas.
Nesse caso, data centers que parecem excessivos em 2026 poderiam parecer insuficientes alguns anos depois.
Essa é precisamente a aposta feita pelas empresas que continuam ampliando agressivamente sua infraestrutura.
E existe um interesse de Hayes nessa história
Outro elemento precisa acompanhar qualquer leitura crítica dessas declarações.
Arthur Hayes não está apenas observando o mercado.
Ele também é CEO da Flop Labs, projeto que pretende construir uma rede na qual agentes de inteligência artificial possam comprar capacidade computacional diretamente, remunerando operadores que disponibilizem GPUs.
A proposta parte justamente da premissa de que computação se tornará uma espécie de commodity negociável para máquinas autônomas.
O projeto pretende usar uma unidade econômica baseada em operações computacionais e seu próprio token para estabelecer esse mercado.
Ou seja: Hayes está apostando empresarialmente no futuro que descreve.
Isso não torna sua análise automaticamente errada.
Mas muda a forma como ela deve ser interpretada.
Quando alguém prevê que determinado mercado sofrerá uma transformação e simultaneamente constrói uma empresa destinada a lucrar exatamente com essa transformação, existe um incentivo econômico que o leitor precisa conhecer.
Análise da equipe
A hipótese de Arthur Hayes acerta ao deslocar a discussão sobre inteligência artificial dos modelos para aquilo que existe atrás deles.
A verdadeira corrida atual não acontece apenas dentro dos laboratórios.
Ela acontece em usinas, linhas de transmissão, fábricas de semicondutores, mercados de dívida, fundos de infraestrutura e enormes terrenos onde prédios capazes de consumir centenas de megawatts estão sendo construídos.
É aí que uma eventual bolha seria formada.
Entretanto, chamar todo esse investimento de desperdício ignora uma característica fundamental das grandes infraestruturas tecnológicas: mesmo investimentos financeiramente ruins podem produzir ativos social e economicamente úteis.
Ferrovias foram construídas demais. Redes de telecomunicações foram construídas demais. Fibra óptica foi instalada antes que existisse demanda suficiente.
Investidores perderam fortunas.
A infraestrutura permaneceu.
A pergunta talvez não seja, portanto, se existe uma bolha de inteligência artificial.
A pergunta mais interessante é outra:
**quem ficará com a infraestrutura quando o entusiasmo financeiro diminuir?**
Se data centers altamente equipados forem vendidos a preços reduzidos, capacidade computacional poderá cair nas mãos de empresas menores, universidades, laboratórios, governos e novos provedores.
Isso poderia democratizar uma infraestrutura hoje concentrada em poucas companhias.
Há também o cenário oposto.
Os gigantes com maior capacidade financeira podem simplesmente comprar os ativos depreciados dos concorrentes, ampliando ainda mais sua concentração.
Nesse caso, o estouro da bolha não democratizaria a inteligência artificial.
Ele consolidaria o poder.
O que observar até 2028
Os próximos dois anos devem mostrar qual dessas histórias está mais próxima da realidade.
Não basta observar quanto dinheiro está sendo gasto.
Será necessário acompanhar utilização efetiva dos data centers, preços de inferência, rentabilidade dos laboratórios de IA, evolução do custo por tarefa, contratos de longo prazo, quantidade de dívida utilizada nos projetos e, principalmente, quem assume a obrigação caso o cliente original não consiga pagar.
Também valerá acompanhar algo aparentemente contraditório.
Se o preço da computação começar a despencar enquanto o consumo continua aumentando rapidamente, isso não será necessariamente sinal de fracasso da inteligência artificial.
Pode ser justamente o sinal de que a infraestrutura está começando a funcionar como commodity.
Hayes imagina que essa transição virá acompanhada de uma crise financeira, resgate e valorização do Bitcoin.
Ele pode acertar.
Mas existe uma possibilidade muito mais silenciosa e talvez mais interessante.
O grande excesso de investimento da era da IA pode acabar fazendo pela computação inteligente aquilo que a expansão exagerada da fibra óptica fez pela internet: destruir muito dinheiro no caminho enquanto constrói a infraestrutura barata que permitirá a próxima geração de empresas.
Nesse caso, alguns dos investimentos realmente terão sido ruins.
A tecnologia, não.
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