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Brasil já pensa em 2030: renovar o meio-campo é urgente, mas trocar nomes não resolverá tudo

Brasil já pensa em 2030: renovar o meio-campo é urgente, mas trocar nomes não resolverá tudo

**A eliminação por 2 a 1 diante da Noruega, nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, encerrou a pior campanha brasileira desde 1990 e antecipou um debate que normalmente levaria alguns meses para amadurecer: quem ainda terá condições de disputar o Mundial de 2030 e, principalmente, qual seleção o Brasil pretende construir até lá? Carlo Ancelotti, cujo contrato com a CBF foi renovado até a próxima Copa, reconheceu que o meio-campo precisa receber jogadores jovens e de alto nível.

O diagnóstico parece óbvio, mas esconde um desafio maior.

O Brasil não precisa apenas substituir veteranos por atletas mais novos; precisa reconstruir o setor que organiza o time, controla o ritmo e impede que uma equipe cercada de atacantes continue jogando como se estivesse permanentemente partida ao meio.**

A discussão começou pela idade. Casemiro chegará a 2030 com 38 anos, enquanto Fabinho estará próximo dos 37. Entre os meio-campistas levados por Ancelotti ao Mundial de 2026, Danilo Santos é o único que ainda estará abaixo dos 30 anos na próxima edição.

Bruno Guimarães e Lucas Paquetá terão 32 anos; Éderson, 30. Alguns deles poderão continuar competitivos, mas o ciclo não pode ser organizado sob a expectativa de que todos mantenham rendimento físico e protagonismo durante mais quatro temporadas intensas.

A idade, contudo, é apenas o dado mais fácil de enxergar. O problema real do meio-campo brasileiro não está exclusivamente no RG dos jogadores, mas na falta de uma arquitetura estável. Durante o ciclo de 2026, a seleção alternou volantes de contenção, meias improvisados, atacantes recuados e formações que nem sempre ofereciam saída de bola segura, controle territorial e presença criativa entre as linhas. A renovação será insuficiente caso o Brasil apenas coloque jogadores mais jovens nas mesmas funções mal definidas.

A eliminação mostrou um problema de estrutura, não apenas de escalação

O Brasil chegou às oitavas depois de derrotar o Japão por 2 a 1, mas caiu diante da Noruega pelo mesmo placar.

O resultado encerrou a sexta tentativa consecutiva de conquistar o Mundial desde o pentacampeonato de 2002 e obrigou a CBF a iniciar imediatamente o planejamento para 2030. A permanência de Ancelotti evita uma nova troca de comando no começo do ciclo, algo importante depois de anos marcados por mudanças, interinidades e projetos interrompidos.

Estabilidade, porém, não pode virar proteção contra autocrítica. A continuidade do treinador só terá valor se permitir a criação de um modelo reconhecível, testado durante anos e menos dependente da disponibilidade momentânea de estrelas. Renovar o contrato não elimina os problemas observados em campo; apenas oferece tempo para enfrentá-los.

O meio-campo concentra a maior parte dessa responsabilidade porque conecta todas as outras áreas.

Quando ele funciona, a defesa recebe proteção, os laterais encontram cobertura, a saída de bola ganha alternativas e os atacantes recebem a posse em condições melhores. Quando não funciona, a seleção acumula jogadores ofensivos, mas permanece incapaz de controlar adversários organizados.

Durante anos, o debate brasileiro foi reduzido à procura por “um novo camisa 10” ou por um substituto individual para Casemiro.

A seleção de 2030 precisará de algo menos romântico e mais funcional: jogadores complementares, capazes de construir uma unidade em vez de esperar que um único talento organize todas as fases do jogo.

Andrey Santos aparece como o nome mais evidente

Entre os jogadores já observados por Ancelotti, Andrey Santos surge como uma das opções mais naturais para o próximo ciclo.

O meio-campista do Chelsea tem 22 anos, chegará ao Mundial de 2030 com 26 e integrou a pré-lista da seleção para a Copa de 2026. Sua combinação de intensidade, chegada à área e capacidade de atuar em diferentes alturas do campo faz dele uma peça relevante para uma equipe que precisa recuperar presença física sem abrir mão da construção.

Andrey, entretanto, não deve ser transformado antecipadamente em solução total. Sua evolução dependerá da continuidade no futebol de alto nível, da função que exercerá no clube e do modo como será integrado à seleção. O erro brasileiro recorrente é anunciar um jovem como resposta definitiva antes que ele tenha recebido tempo para construir a própria identidade internacional.

André, de 24 anos, também permanece no radar. O jogador do Wolverhampton ganhou destaque no Fluminense campeão da Libertadores de 2023, mas perdeu espaço durante o ciclo em meio à fase ruim do clube inglês. Seu perfil de organização na base da jogada pode ser útil, especialmente contra adversários que pressionam a saída brasileira. João Gomes, também no Wolverhampton, oferece outra característica: intensidade defensiva, cobertura de espaços e pressão sobre o portador da bola.

A diferença entre os dois ajuda a demonstrar por que a renovação não deve ser tratada como ranking simples. André e João Gomes podem ocupar regiões próximas, mas entregam respostas distintas. Uma seleção funcional precisa saber quando necessita de circulação, quando precisa acelerar a recuperação da posse e quais combinações preservam o equilíbrio.

Bruno Bidon, Bontempo e Martinelli representam a aposta doméstica

Entre os jogadores que ainda não receberam sequência na seleção principal, Bruno Bidon, do Corinthians, Gabriel Bontempo, do Santos, e Martinelli, do Fluminense, aparecem como alternativas em desenvolvimento. Bidon e Bontempo têm 21 anos, enquanto Martinelli tem 24. Os três já exercem funções importantes em seus clubes e chegarão ao próximo Mundial em uma faixa etária favorável.

Breno Bidon acrescenta outra possibilidade ao radar, assim como Gabriel Moscardo, Marlon Gomes, Pedrinho e Jhon Jhon.

O número de candidatos é amplo, mas uma lista extensa não significa que a seleção possua soluções prontas. Entre ser promissor no clube e sustentar o meio-campo brasileiro em uma Copa existe uma distância que precisa ser percorrida em amistosos relevantes, Eliminatórias e partidas de pressão real. )

O novo ciclo deveria evitar o padrão de convocar dezenas de jogadores sem desenvolver verdadeiramente nenhum deles. Testes são necessários, mas precisam estar vinculados a funções. Convocar um atleta, oferecer vinte minutos em uma formação improvisada e descartá-lo na data seguinte produz estatística de renovação, não construção de equipe.

O Brasil precisa definir quais perguntas pretende responder. Quem será responsável pela primeira saída? Quem protegerá o espaço atrás dos laterais? Quem receberá entre as linhas? Quem será capaz de controlar uma vantagem sem transformar os minutos finais em uma sequência de transições? Sem essas respostas, os jovens serão apenas nomes ocupando espaços antigos.

Lucas Beraldo pode ser mais do que zagueiro

Lucas Beraldo aparece como uma alternativa particularmente interessante porque pode atuar na defesa e no meio-campo. Revelado como zagueiro, o jogador do Paris Saint-Germain também vem sendo utilizado como volante por Luis Enrique. Essa versatilidade permite imaginar uma seleção capaz de modificar sua estrutura durante a partida sem realizar uma substituição.

Em fase defensiva, Beraldo poderia formar uma linha mais protegida. Com a bola, poderia avançar e participar da circulação no meio. Esse tipo de jogador híbrido ganhou valor no futebol contemporâneo porque as formações deixaram de ser estruturas fixas: uma equipe pode defender com quatro jogadores e construir com três, ou iniciar com três defensores e transformar um deles em meio-campista durante a posse.

A utilidade de Beraldo, porém, dependerá de uma ideia coletiva clara. Versatilidade não pode significar improvisação permanente. Um jogador capaz de atuar em duas posições precisa compreender mecanismos específicos em ambas, e não apenas ser deslocado para corrigir emergências de escalação.

Bruno Guimarães, Paquetá e Éderson ainda podem participar do ciclo

Renovação não significa expulsar todos os jogadores experientes. Bruno Guimarães, Lucas Paquetá e Éderson chegarão a 2030 em idades que ainda permitem rendimento competitivo. O desafio será redefinir a responsabilidade de cada um dentro de uma equipe que não pode depender somente da geração atual. ([ge][4])

Bruno Guimarães poderá oferecer liderança e qualidade de passe, mas precisa estar inserido em uma estrutura que reduza a exigência de resolver simultaneamente a saída, a pressão e a criação. Paquetá pode funcionar como articulador ou jogador de aproximação, desde que o Brasil não dependa de sua improvisação para gerar todas as conexões ofensivas. Éderson oferece potência, condução e cobertura, características úteis para um time que pretende jogar com intensidade.

A transição mais saudável não separa veteranos e jovens em blocos adversários. Ela utiliza os mais experientes para transmitir referências enquanto os novos assumem responsabilidades progressivamente. O erro seria adiar decisões por lealdade ao passado ou, no extremo oposto, iniciar uma limpeza emocional apenas para sinalizar mudança.

As laterais também exigirão reconstrução

Embora Ancelotti tenha destacado o meio-campo, as laterais permanecem abertas. Na direita, Wesley, da Roma, deve continuar sendo observado após ter sido cortado do Mundial por lesão. Vanderson, Yan Couto, Arthur, Dodô, Pedro Lima e outros jogadores aparecem como candidatos para os próximos anos. A ausência de um titular consolidado levou o Brasil a utilizar zagueiros e atletas adaptados durante o último ciclo.

Na esquerda, a transição será ainda mais evidente. Alex Sandro e Douglas Santos terão, respectivamente, 39 e 36 anos em 2030. Kaiki, Luciano Juba, Abner Vinícius, Cuiabano, Souza e Kauã Prates estão entre as opções citadas para o futuro.

A escassez de laterais não é exclusivamente brasileira. O futebol contemporâneo transformou a posição: alguns treinadores querem amplitude, outros usam o lateral por dentro, enquanto determinadas equipes preferem praticamente um terceiro zagueiro. Antes de escolher os nomes, Ancelotti precisará definir o comportamento esperado.

Essa decisão afetará diretamente o meio-campo. Laterais ofensivos exigem volantes capazes de cobrir grandes espaços. Laterais que entram por dentro precisam participar da circulação. Defensores mais conservadores transferem aos pontas a obrigação de manter a largura. O elenco deve ser construído como sistema, não como coleção de melhores jogadores por posição.

O gol entrará em um ciclo diferente

Depois de duas Copas com a mesma base de goleiros, o setor também deve mudar. Weverton terá 42 anos em 2030, enquanto Alisson chegará aos 37 e Ederson aos 36. Bento e Hugo Souza terão 31, Carlos Miguel também estará na faixa considerada competitiva, e nomes como Luiz Júnior, Kauã Santos, Gabriel Brazão, Otávio e Pedro Morisco podem ganhar espaço ao longo do ciclo.

Alisson e Ederson ainda podem aparecer nas primeiras convocações, mas a seleção precisa utilizar os próximos anos para oferecer experiência aos sucessores. Goleiro não é posição em que a renovação deva ocorrer às pressas na véspera do torneio. A relação com a linha defensiva, a comunicação e a adaptação à pressão internacional exigem continuidade.

A questão também envolve estilo. O Brasil precisará decidir quanto valor atribui à construção com os pés, à defesa de espaço fora da área, à capacidade em bolas aéreas e ao desempenho em pênaltis. Selecionar apenas pelo momento nos clubes pode produzir mudanças constantes sem estabelecer uma hierarquia confiável.

No ataque, o Brasil possui quantidade e precisa descobrir complementaridade

O setor ofensivo parece menos preocupante em termos de opções. Vinícius Júnior, Rodrygo, Gabriel Martinelli, Luiz Henrique e Matheus Cunha chegarão a 2030 próximos do auge físico. Estêvão, Endrick e Rayan terão 23 anos, com tempo para amadurecer e assumir funções centrais. Savinho, João Pedro, Vitor Roque, Igor Thiago, Rômulo, Kauã Elias e outros nomes ampliam a disputa.

O excesso de atacantes, porém, não resolve automaticamente o ataque. O Brasil precisa compreender quais jogadores criam amplitude, quais atacam a área, quem joga entre linhas e quem consegue pressionar sem a bola. Escalar os nomes mais famosos simultaneamente pode aumentar o talento individual e reduzir a coerência coletiva.

A seleção de 2026 já demonstrou que possuir atacantes de alto nível não garante controle. Quando o meio-campo não consegue sustentar a posse ou recuperar a bola, os jogadores ofensivos recebem longe do gol e são obrigados a resolver situações em desvantagem. A renovação do setor central também é uma forma de melhorar o ataque sem trocar os atacantes.

Quem será impactado primeiro

Os primeiros afetados serão Casemiro, Fabinho e outros veteranos cuja presença já não pode ser tratada como automática. Isso não significa encerramento imediato, mas uma mudança no peso da experiência dentro das convocações. O ciclo deve começar avaliando quem ainda pode contribuir sem bloquear a construção dos sucessores.

Os jovens que ficaram na pré-lista ou apareceram pontualmente também entrarão sob maior cobrança. Andrey Santos, João Gomes, André e Gabriel Sara não serão mais observados apenas como promessas; precisarão demonstrar capacidade para assumir funções reais. Para Bidon, Bontempo, Moscardo e outros nomes em formação, o próximo biênio será decisivo para transformar potencial em regularidade.

Os clubes brasileiros também serão impactados. A seleção precisará acompanhar atletas antes que eles se tornem titulares em grandes equipes europeias, utilizando dados, observação presencial e integração com as categorias de base. Esperar que o mercado internacional valide cada jogador transfere parte do planejamento da CBF para decisões tomadas por clubes estrangeiros.

O que pode dar errado

O primeiro risco é confundir juventude com solução. Um atleta de 21 anos pode correr mais e ainda compreender menos os momentos do jogo. Renovar exige tolerar erros, construir associações e definir responsabilidades. Apenas substituir jogadores experientes por jovens não cria um meio-campo melhor.

O segundo risco é transformar o novo ciclo em uma convocação permanente de novidades. A cada boa sequência no Campeonato Brasileiro ou no futebol europeu, surgirá pressão por um nome diferente. Se Ancelotti responder a todas as ondas do momento, chegará a 2030 com dezenas de jogadores testados e poucas relações consolidadas.

Existe também o perigo de avaliar o meio-campo somente por gols, assistências ou valor de mercado. Controle de espaços, orientação corporal, passe sob pressão, cobertura e capacidade de acelerar ou desacelerar o jogo são menos visíveis, mas frequentemente mais importantes para uma seleção.

Por fim, a continuidade de Ancelotti pode se tornar confortável demais. O contrato até 2030 oferece estabilidade, mas precisa estar acompanhado de metas intermediárias, avaliação de desempenho e desenvolvimento de um modelo. Quatro anos não podem ser utilizados como argumento para adiar correções que já são evidentes.

O que ninguém ainda está discutindo

O Brasil costuma tratar a seleção como ponto de encontro de jogadores formados por sistemas diferentes, mas o problema de 2030 começa muito antes das convocações. Meio-campistas precisam de minutos, continuidade e responsabilidade nos clubes. Atletas jovens frequentemente são exportados cedo, mudam de posição, enfrentam empréstimos sucessivos ou passam temporadas como reservas em equipes maiores.

A CBF não controla essas decisões, mas pode desenvolver acompanhamento mais estruturado, oferecer referências táticas comuns às seleções de base e manter comunicação constante com clubes e jogadores. A renovação não deveria começar quando o atleta recebe sua primeira convocação. Deveria começar quando ele é identificado como possível integrante do projeto.

Também será necessário repensar o culto brasileiro ao jogador ofensivo. Pontas habilidosos ganham projeção rapidamente, enquanto volantes e meias de organização amadurecem em funções menos celebradas. Uma seleção que produz dezenas de atacantes, mas não consegue controlar o centro do campo, está formando talento sem construir equilíbrio.

O problema do Brasil não é falta de jogadores. É falta de continuidade entre identificação, desenvolvimento, convocação e utilização.

Análise da equipe PixBugTech

A seleção brasileira precisa parar de tratar cada fracasso como problema de atualização de elenco. Não basta instalar jogadores novos em uma arquitetura antiga e esperar que o sistema deixe de travar.

O meio-campo é o kernel da equipe: quando ele falha, a defesa perde proteção, o ataque perde conexão e qualquer transição adversária parece um erro crítico em produção.

Andrey Santos, André, João Gomes, Bidon, Bontempo e os demais candidatos oferecem perfis interessantes. Nenhum deles, isoladamente, é a solução. O objetivo deve ser construir combinações capazes de responder a diferentes adversários sem alterar completamente a identidade da equipe a cada convocação.

A permanência de Ancelotti elimina a desculpa da falta de tempo. O treinador terá um ciclo integral, algo que não possuía antes do Mundial de 2026. Isso aumenta a possibilidade de construção, mas também aumenta a responsabilidade. Em 2030, não será possível dizer que o trabalho começou tarde.

A próxima Copa será disputada principalmente em Espanha, Portugal e Marrocos, com partidas comemorativas do centenário na Argentina, no Paraguai e no Uruguai. O Brasil ainda aguarda a definição do formato das Eliminatórias sul-americanas, já que três seleções da Conmebol estarão classificadas como anfitriãs.

Antes de pensar no trajeto até seis países, a seleção precisa decidir quem controlará o trajeto da bola entre defesa e ataque.

2030 começa agora, mas não precisa começar com pressa

O próximo ciclo terá seus primeiros movimentos já nas datas internacionais posteriores ao Mundial. Convocações iniciais devem oferecer espaço a novos jogadores, mas a reconstrução precisa ser progressiva. O objetivo não é apresentar imediatamente a equipe que jogará em 2030 — algo impossível quatro anos antes —, mas criar critérios que permitam reconhecer quem está se aproximando dela.

O Brasil ainda possui matéria-prima para formar uma seleção competitiva.

A geração de Endrick, Estêvão e Rayan pode fortalecer um ataque que já conta com jogadores maduros. A defesa possui opções jovens, e o gol oferece candidatos suficientes para uma transição organizada. O meio-campo, no entanto, decidirá se esse talento funcionará como equipe ou continuará dependendo de lampejos.

A Copa de 2026 terminou com a sensação de que o Brasil possuía peças, mas não controlava plenamente o jogo. Para 2030, a missão não é apenas encontrar nomes mais jovens. É construir uma seleção que saiba o que fazer com eles.

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