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Colômbia cancela projeto de fibra óptica na Amazônia que previa conexão com o Brasil

Colômbia cancela projeto de fibra óptica na Amazônia que previa conexão com o Brasil

**Categoria editorial:** Telecomunicações / Infraestrutura Digital

Colômbia cancela projeto de fibra óptica na Amazônia que previa conexão com o Brasil

**Linha fina:** Novo governo cancelou uma licitação estimada em 1,14 trilhão de pesos colombianos após o orçamento subir 67,1%; rede atenderia 227 mil pessoas e integraria a Amazônia colombiana à infraestrutura brasileira.

**Meta description:** Colômbia cancela licitação de fibra óptica na Amazônia após custo subir 67,1%; projeto previa conectar 227 mil pessoas e integrar rede ao Brasil.

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Matéria completa

A Colômbia cancelou um dos projetos de infraestrutura digital mais ambiciosos planejados para sua região amazônica. A decisão atinge a licitação destinada a construir uma extensa rede de fibra óptica em Amazonas e Putumayo, com conexão à infraestrutura brasileira e capacidade de levar internet de alta velocidade a áreas que ainda dependem de enlaces caros, limitados ou pouco resilientes.

A medida foi tomada poucos dias depois da troca de governo em Bogotá. Alexandra Falla Zerrate, que assumiu o Ministério das Tecnologias da Informação e das Comunicações no governo de Abelardo de la Espriella, determinou o cancelamento da licitação FTIC-LP-001-2026 após uma revisão administrativa, jurídica e técnica do projeto.

Segundo o ministério colombiano, o custo estimado havia alcançado **1,14 trilhão de pesos colombianos**, depois de ter sido estruturado originalmente em aproximadamente **683 bilhões de pesos** em 2025. A diferença representa uma alta de **67,1%**.

O governo também afirma ter encontrado incertezas financeiras e estimativas preliminares capazes de produzir riscos técnicos, ambientais e de cobertura. Essas são, neste momento, justificativas apresentadas pelo próprio Ministério. O comunicado de cancelamento não equivale a uma auditoria técnica independente que permita verificar publicamente cada uma das fragilidades apontadas.

A decisão é relevante para o Brasil porque o projeto colombiano fazia parte de uma arquitetura maior de conectividade amazônica que pretendia utilizar as redes brasileiras como uma das portas de entrada para a região.

O que exatamente foi cancelado

A descrição de que a Colômbia simplesmente “cancelou a internet com o Brasil” é atraente como manchete, mas tecnicamente imprecisa.

O que foi cancelado foi o processo de contratação do **projeto Fibra Óptica para a Amazônia**, destinado a fortalecer a infraestrutura digital dos departamentos colombianos de Amazonas e Putumayo.

O desenho mais recente previa mais de 1.600 quilômetros de infraestrutura com trechos terrestres, fluviais e transfronteiriços. A rede deveria alcançar localidades como Letícia, Puerto Nariño, Puerto Alegría, El Encanto, Puerto Arica e Tarapacá, no Amazonas colombiano, além de Puerto Asís, Puerto Leguízamo e San Miguel, em Putumayo.

A estimativa oficial era beneficiar aproximadamente **227 mil pessoas e cerca de 100 mil domicílios**.

Dentro dessa arquitetura havia uma conexão internacional importante: a rede colombiana seria integrada às **Infovias brasileiras**, aproveitando a infraestrutura de fibra que avança pela Amazônia do lado brasileiro.

Portanto, o cancelamento atinge diretamente o corredor que utilizaria essa interligação.

Isso não significa, com as informações disponíveis até agora, que todos os acordos de telecomunicações entre Brasil e Colômbia tenham sido revogados ou que uma futura conexão entre os dois países tenha sido abandonada definitivamente.

É uma diferença importante.

Tabatinga e Letícia são praticamente uma mesma cidade separada por uma fronteira

Para entender por que o Brasil entrou nessa história, é preciso olhar para o mapa.

Tabatinga, no Amazonas, e Letícia, capital do departamento colombiano do Amazonas, estão lado a lado na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. Na prática, formam uma área urbana profundamente integrada, com circulação cotidiana de pessoas e atividades econômicas dos dois lados da fronteira.

Levar fibra até Tabatinga abriu a possibilidade de conectar Letícia utilizando uma extensão relativamente curta da infraestrutura.

As conversas oficiais começaram pelo menos em 2023. Em abril de 2024, durante uma visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Colômbia, os governos assinaram um memorando de entendimento para avançar na integração das redes.

O plano brasileiro já previa uma longa infovia subfluvial pelo rio Solimões, alcançando municípios do interior do Amazonas até chegar à fronteira.

A Colômbia pretendia aproveitar esse ponto e continuar a expansão para dentro de seu território.

É muito mais eficiente pensar a Amazônia dessa maneira do que fingir que rios e distâncias obedecem aos desenhos políticos impressos em um mapa.

Redes de telecomunicações não precisam respeitar a mesma lógica das fronteiras.

A ambição era muito maior do que levar internet a Letícia

O projeto colombiano não era apresentado apenas como uma solução para municípios isolados.

O governo anterior enxergava aquela infraestrutura como parte de um corredor digital internacional.

A rede poderia conectar a infraestrutura brasileira às redes colombianas e criar rotas adicionais até o lado do Pacífico. A ideia era aumentar a redundância, ou seja, oferecer caminhos alternativos para que o tráfego de dados continue circulando caso determinado enlace fique indisponível.

No lado brasileiro, essa discussão também existe.

Grande parte da conectividade internacional do país está relacionada a cabos submarinos que saem pela costa atlântica. Uma rota terrestre e fluvial atravessando países vizinhos pode criar caminhos alternativos e aumentar a resiliência da infraestrutura.

Isso não significa que o projeto cancelado já fosse capaz de redirecionar uma parcela significativa da internet brasileira para o Pacífico.

Entre construir uma rede regional na Amazônia e estabelecer um grande corredor continental de dados existe uma diferença enorme de capacidade, acordos comerciais, interconexões, equipamentos e investimentos.

A relevância estratégica estava na possibilidade de começar a montar essa arquitetura.

O orçamento cresceu rapidamente

O aumento do custo é o principal número utilizado pelo novo governo colombiano para justificar a revisão.

Em 2025, o documento Conpes 4167 declarou o projeto de importância estratégica com previsão de aproximadamente 683 bilhões de pesos colombianos.

A estruturação continuou nos meses seguintes.

Em março de 2026, quando o governo publicou documentos preliminares da licitação, a estimativa já estava na faixa de 970 bilhões de pesos.

Depois de novas revisões técnicas e financeiras, o Conpes 4195, aprovado em maio, atualizou novamente a estrutura econômica do programa. O processo finalmente chegou a cerca de 1,14 trilhão de pesos.

O salto de 67,1% em relação ao desenho original é relevante e precisa ser explicado.

Mas aumento de orçamento, sozinho, não prova desperdício ou irregularidade.

Projetos complexos mudam de preço quando estudos de engenharia amadurecem, novas obrigações aparecem, custos de materiais variam ou o escopo inicial se mostra subestimado.

Também ocorre o contrário: estimativas preliminares podem esconder projetos mal dimensionados que se tornam progressivamente mais caros conforme a execução se aproxima.

É exatamente por isso que a transparência sobre os estudos técnicos será mais importante do que a porcentagem isolada.

Instalar fibra no fundo de um rio amazônico está longe de ser uma obra comum

Há razões técnicas para um projeto desse tipo ser caro.

Cabos subfluviais precisam atravessar uma região com enormes distâncias, acesso logístico difícil e rios extremamente dinâmicos. O levantamento do leito, a definição das rotas, o posicionamento do cabo, as estações de telecomunicações e a manutenção posterior formam um sistema muito mais complexo que simplesmente estender alguns quilômetros de fibra por postes urbanos.

Rios amazônicos mudam.

Sedimentos se deslocam, margens sofrem erosão, profundidades variam durante o ano e atividades humanas podem interferir fisicamente na infraestrutura.

Também é preciso instalar equipamentos de transmissão, energia e redundância nos pontos atendidos.

Uma fibra sem capacidade de operação e manutenção é apenas um cabo caro debaixo d'água.

O desafio ambiental é igualmente relevante.

Utilizar rios pode reduzir a necessidade de abrir longos corredores terrestres dentro da floresta, mas não elimina impactos ambientais. Estudos precisam considerar intervenções nas margens, instalação de estruturas, transporte de equipamentos, comunidades tradicionais e efeitos de longo prazo da operação.

Nada disso prova que o projeto colombiano era inviável.

Mostra apenas por que uma avaliação séria precisa ir além do valor total estampado na licitação.

A mudança de governo virou parte do problema

O momento da decisão é politicamente significativo.

O projeto foi concebido e avançou durante o governo de Gustavo Petro. A autorização para comprometer recursos de anos futuros foi emitida em **4 de agosto de 2026**, poucos dias antes da mudança presidencial.

Abelardo de la Espriella assumiu a Presidência em 7 de agosto, e Alexandra Falla tomou posse à frente do Ministério das TIC logo depois.

Em 18 de agosto, a licitação estava cancelada.

Falla afirma que começou a acompanhar o processo ainda durante o período de transição e que criou uma equipe especializada para analisá-lo assim que assumiu o ministério.

Petro reagiu publicamente à decisão.

O ex-presidente argumentou que o projeto estava financiado e criticou o novo governo por interromper a expansão tecnológica na Amazônia.

A crítica política, contudo, também não resolve a discussão técnica.

O fato de um projeto possuir recursos autorizados não significa necessariamente que sua engenharia, contratação ou estrutura econômica sejam adequadas. Da mesma forma, uma troca de governo não é, por si só, evidência de que uma infraestrutura herdada precise ser cancelada.

Os documentos e os estudos que embasaram as duas posições são o que realmente deveriam orientar a análise.

O maior risco pode ser começar tudo novamente

Cancelar uma licitação problemática pode economizar dinheiro público.

Cancelar um projeto necessário sem apresentar rapidamente uma alternativa pode produzir o efeito contrário.

A Amazônia colombiana continua com uma deficiência concreta de infraestrutura de telecomunicações independentemente de quem ocupa a Presidência.

As 227 mil pessoas que apareciam como potenciais beneficiárias não deixaram de precisar de banda larga porque o orçamento foi questionado.

Se o governo colombiano decidir redesenhar a iniciativa, terá de preservar parte dos estudos já realizados, reavaliar custos, estabelecer um novo modelo de contratação e provavelmente reconstruir cronogramas.

Quanto maior o intervalo entre o cancelamento e a solução substituta, maior o risco de a economia inicialmente obtida se transformar em anos adicionais de atraso.

Em infraestrutura, tempo também custa dinheiro.

Satélites não tornam fibra óptica desnecessária

Uma alternativa inevitavelmente aparecerá nessa discussão: internet por satélite.

Constelações em órbita baixa conseguem atender localidades onde construir redes terrestres ou fluviais é difícil e caro. Para comunidades pequenas e extremamente remotas, podem ser uma solução extraordinariamente eficiente.

Isso não elimina a função da fibra.

Redes ópticas possuem enorme capacidade de transporte de dados e podem atender simultaneamente provedores, órgãos públicos, escolas, hospitais, estações móveis e outras redes regionais.

Satélite funciona muito bem como acesso e redundância em diferentes cenários.

Fibra funciona como espinha dorsal.

Tratar as duas tecnologias como rivais absolutas é simplificar um problema de infraestrutura que normalmente exige ambas.

A melhor arquitetura para a Amazônia provavelmente não será uma escolha entre fibra ou satélite, mas uma combinação de fibra, enlaces móveis, rádio e constelações orbitais de acordo com geografia, densidade populacional e custo.

Existe ainda uma questão brasileira

Do lado brasileiro, a expansão das Infovias continua tendo importância própria.

O programa utiliza cabos instalados nos rios para conectar cidades amazônicas que historicamente dependeram de enlaces com capacidade limitada.

A possível integração com a Colômbia acrescentava outra dimensão ao projeto.

Uma infraestrutura que termina em Tabatinga atende o Brasil.

Uma infraestrutura que cruza Letícia, Putumayo e eventualmente se conecta a outras redes colombianas pode se tornar parte de uma rota internacional.

Isso aumenta valor econômico e estratégico.

A decisão colombiana, portanto, não destrói a utilidade das Infovias brasileiras, mas reduz, ao menos no curto prazo, uma possibilidade de expansão transfronteiriça que vinha sendo discutida havia anos.

Projetos digitais também sofrem com fronteiras políticas

Há uma questão maior escondida nesse episódio.

Cabos de telecomunicações são construídos para funcionar durante décadas.

Governos duram poucos anos.

Quando uma infraestrutura depende de dois ou mais países, ela fica exposta não apenas a riscos de engenharia e financiamento, mas também às mudanças de prioridade política em cada lado da fronteira.

Um governo pode considerar determinada conexão estratégica.

O seguinte pode enxergar custo excessivo, risco ambiental ou pouca prioridade.

E outro pode tentar reconstruí-la anos depois.

Essa instabilidade é especialmente problemática para redes internacionais porque cada participante planeja investimentos considerando o comportamento do vizinho.

Quanto maior o projeto, mais importante se torna criar estruturas institucionais que sobrevivam à alternância política.

Análise da equipe

O governo colombiano tem razão em revisar uma licitação cujo orçamento aumentou 67,1% antes da contratação. Um projeto superior a um trilhão de pesos não deveria continuar simplesmente porque já percorreu muitos quilômetros burocráticos.

Mas cancelar é a parte fácil.

A decisão só poderá ser considerada tecnicamente acertada quando Bogotá demonstrar com maior precisão quais componentes produziram o aumento de custos, quais riscos ambientais ou de engenharia foram considerados inadequados e, principalmente, qual solução substituirá a infraestrutura cancelada.

Sem isso, existe o risco de transformar fiscalização legítima em descontinuidade administrativa.

O episódio também merece uma correção importante na maneira como está sendo contado.

A Colômbia não “desligou a internet do Brasil”.

Ela cancelou uma licitação de infraestrutura colombiana que fazia parte de uma arquitetura maior e previa conexão com as Infovias brasileiras.

Parece uma diferença semântica, mas não é.

Uma formulação sugere rompimento digital entre dois países.

A outra descreve o que realmente aconteceu: um novo governo decidiu interromper uma etapa de um projeto binacional e regional que ainda estava em construção.

A próxima decisão será mais importante do que o cancelamento.

Se a Colômbia apresentar rapidamente um projeto tecnicamente mais sólido, ambientalmente defensável e economicamente mais eficiente, a revisão terá cumprido sua função.

Se a fibra simplesmente desaparecer da agenda, a conta não será medida apenas nos 1,14 trilhão de pesos que deixaram de ser contratados.

Ela aparecerá nos anos em que comunidades amazônicas continuarão aguardando a infraestrutura que permitiria participar plenamente da economia digital — enquanto o restante do continente segue avançando em velocidade de fibra óptica.

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