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Congresso dos EUA quer usar IA contra o câncer e colocar limites nos chatbots

Congresso dos EUA quer usar IA contra o câncer e colocar limites nos chatbots

**Em poucos dias, parlamentares norte-americanos apresentaram projetos para empregar inteligência artificial em pesquisas médicas, fiscalização tributária e segurança de fronteiras. Ao mesmo tempo, outras propostas querem proteger menores, rotular conteúdo sintético e controlar os impactos dos data centers.**

O Congresso dos Estados Unidos passou uma semana tentando decidir se a inteligência artificial é uma ferramenta capaz de resolver problemas históricos ou uma tecnologia que precisa ser colocada sob vigilância antes que crie problemas novos.

A resposta encontrada pelos parlamentares foi muito congressista: apresentar projetos para as duas coisas.

Entre o final de junho e os primeiros dias de julho de 2026, deputados e senadores norte-americanos anunciaram uma série de propostas relacionadas à IA.

Algumas pretendem acelerar o uso da tecnologia pelo governo, inclusive em pesquisas sobre câncer infantil, combate a fraudes tributárias e desenvolvimento científico. Outras querem limitar o uso de dados pessoais, exigir medidas de segurança em chatbots e aumentar a fiscalização sobre a infraestrutura necessária para manter esses sistemas funcionando.

A aparente contradição mostra como o debate sobre inteligência artificial está mudando. A pergunta já não é apenas se a tecnologia deve ser adotada, mas onde ela pode ser útil, quem deve responder por seus erros e quais limites precisam existir antes que os danos apareçam.

Inteligência artificial contra o câncer infantil

Uma das propostas mais ambiciosas é a **Accelerating Innovation (AI) for Kids Act**, apresentada em 9 de julho pelo deputado republicano Michael McCaul, com apoio dos parlamentares Ami Bera e Mike Kelly.

O projeto pretende ampliar o uso de IA na pesquisa, no diagnóstico e no tratamento do câncer pediátrico. A proposta prevê maior coordenação entre órgãos federais, modernização da infraestrutura de dados científicos e adaptação de estudos clínicos para trabalhar com informações multimodais, como exames, imagens médicas e históricos clínicos.

Também seria criado um cargo de coordenação dedicado à inovação com IA na área. Esse responsável teria a missão de identificar projetos que poderiam receber apoio do governo e preparar bases de dados para análises automatizadas.

Não se trata de pedir que um chatbot escolha sozinho o tratamento de uma criança. A ideia é utilizar modelos computacionais para analisar grandes volumes de dados, identificar padrões e apoiar pesquisadores na busca por diagnósticos e terapias mais precisos.

A diferença é importante. Inteligência artificial aplicada à medicina pode ser uma ferramenta científica poderosa, mas não substitui avaliação clínica, pesquisas controladas ou responsabilidade humana. O algoritmo pode ajudar a encontrar a agulha no palheiro. Quem decide o que fazer com a agulha ainda precisa usar jaleco.

IA também pode procurar fraudes tributárias

Outra proposta, chamada **AI Tax Integrity Act of 2026**, pretende criar um programa experimental no Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.

Durante um período de aproximadamente 18 meses a dois anos, sistemas de IA seriam testados para identificar padrões relacionados a roubo de identidade, pedidos fraudulentos de créditos tributários, deduções indevidas, restituições falsas e declarações preparadas irregularmente por terceiros.

Após o encerramento do programa, o governo teria de produzir um relatório avaliando os resultados.

A proposta representa um dos usos mais previsíveis da IA dentro do setor público: cruzar grandes quantidades de informações para encontrar anomalias que poderiam passar despercebidas em análises manuais.

O problema, evidentemente, aparece quando uma anomalia estatística começa a ser tratada automaticamente como culpa. Um sistema pode indicar que determinada declaração merece investigação, mas transformar essa indicação em condenação automática seria o equivalente digital de prender a planilha porque uma célula ficou vermelha.

Fronteiras, pesquisas e desafios tecnológicos

A lista de projetos também inclui uma experiência com algoritmos de detecção de anomalias em pontos terrestres de entrada na fronteira do Arizona. A proposta, apresentada pelo deputado David Schweikert, criaria um programa-piloto dentro da agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos.

Outra iniciativa, registrada como **H.R. 9506**, pretende acrescentar competições públicas de inteligência artificial à estratégia nacional norte-americana.

Esses desafios poderiam oferecer prêmios para soluções em áreas como:

• desenvolvimento de novos algoritmos;

• química e ciência de materiais;

• biotecnologia;

• segurança cibernética;

• eficiência energética;

• segurança de sistemas de IA;

• interpretabilidade de modelos;

• computação quântica.

A intenção é utilizar competições públicas para atrair universidades, empresas e pesquisadores independentes em torno de problemas considerados estratégicos pelo governo.

Até aqui, a inteligência artificial aparece como instrumento de pesquisa, fiscalização e desenvolvimento tecnológico.

Então chegam os chatbots.

Projeto quer impedir que conversas de menores sejam usadas para treinar IA

Os deputados Valerie Foushee e Greg Casar apresentaram em 9 de julho o **People-First Chatbot Act**, registrado como H.R. 9619.

A proposta estabelece regras federais para empresas que oferecem chatbots baseados em inteligência artificial. Entre as medidas previstas estão a proibição de utilizar conversas e dados pessoais de menores para treinar os sistemas e a exigência de consentimento afirmativo antes que informações de usuários adultos sejam utilizadas para essa finalidade.

O texto também pretende:

• desativar recursos considerados prejudiciais para usuários menores;

• limitar o uso de conversas para publicidade e criação de perfis;

• garantir acesso e exclusão dos históricos armazenados;

• informar claramente quando a pessoa está conversando com uma máquina;

• exigir avaliações periódicas de segurança;

• ampliar a possibilidade de responsabilização das empresas.

As propostas surgem em meio à preocupação crescente com sistemas que simulam personalidades, criam vínculos emocionais e mantêm conversas prolongadas com usuários vulneráveis.

O ponto central é que um chatbot não funciona apenas como uma ferramenta de busca. Ele pode falar como amigo, professor, conselheiro ou personagem. Quanto mais convincente se torna a atuação, maior é a necessidade de deixar claro que não existe uma pessoa real do outro lado.

O computador continua sendo computador, mesmo quando aprendeu a responder “eu entendo perfeitamente como você se sente”.

Conteúdo feito por IA poderá receber identificação obrigatória

Outro projeto bipartidário apresentado na Câmara é o **Spot the Fakes Act**, registrado como H.R. 9578.

A proposta exigiria que textos, imagens, vídeos, áudios e outros conteúdos produzidos por inteligência artificial recebessem uma identificação técnica informando sua origem. Essa marcação poderia ser inserida nos metadados do arquivo ou em outro mecanismo tecnológico capaz de comprovar sua procedência.

A Comissão Federal de Comércio, conhecida pela sigla FTC, trabalharia com o Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia, o NIST, para definir as regras técnicas.

A medida não obrigaria necessariamente que toda imagem de IA ganhasse uma faixa gigante dizendo “ISTO NÃO É REAL”. A proposta busca criar uma identificação durável, capaz de ser detectada por plataformas, veículos de imprensa e ferramentas de verificação.

O desafio é garantir que a marca não desapareça na primeira captura de tela, edição, compactação ou repostagem. Metadados são úteis, mas costumam ter a mesma resistência de um biscoito mergulhado no café.

Data centers entram no centro da discussão

A expansão da inteligência artificial também está aumentando a pressão sobre redes elétricas, sistemas de abastecimento de água e comunidades próximas aos grandes centros de processamento.

O senador Ed Markey apresentou em 10 de julho uma agenda composta por diferentes propostas de responsabilização na área de IA. O pacote aborda vigilância no trabalho, proteção infantil, discriminação algorítmica, decisões automatizadas na saúde e impactos ambientais dos data centers.

Um dos textos em discussão exigiria que novos data centers obtivessem uma certificação federal antes da construção, demonstrando o cumprimento de padrões mínimos ambientais, energéticos, econômicos e trabalhistas. As empresas também poderiam ter de financiar parte da infraestrutura elétrica necessária para atender ao próprio consumo.

Existe, porém, uma distinção importante.

O deputado Greg Landsman apresentou oficialmente na Câmara o **Protecting Communities from Data Center Impacts Act of 2026**, registrado como H.R. 9629. A versão apresentada exige um estudo sobre os efeitos ambientais e de saúde pública dos data centers, além da elaboração de boas práticas relacionadas a ruído, poluição, consumo de água, emissões e lixo eletrônico.

Já o texto divulgado por Markey como proposta em discussão é mais amplo e prevê a certificação federal antes da construção.

Portanto, embora as iniciativas tenham nomes semelhantes e objetivos relacionados, a versão oficialmente protocolada na Câmara é mais limitada do que o plano descrito pelo senador.

O Congresso está sendo contraditório?

À primeira vista, sim.

Em uma mesma semana, parlamentares defenderam a adoção acelerada da IA em pesquisas médicas, fiscalização tributária e segurança pública, enquanto outros tentaram limitar chatbots, conteúdo sintético e centros de processamento.

Na prática, porém, as propostas tratam de aplicações diferentes.

Um sistema utilizado para encontrar padrões em dados científicos não apresenta os mesmos riscos de um chatbot que conversa durante horas com uma criança. Uma ferramenta de detecção de fraude não deveria seguir as mesmas regras de um gerador de imagens. Um data center não é um modelo de linguagem, mas sem o primeiro o segundo não funciona.

A dificuldade está justamente em criar regras específicas sem congelar uma tecnologia que muda rapidamente.

Regulação excessivamente ampla pode impedir usos legítimos. Regulação fraca demais pode deixar empresas experimentarem diretamente na população e pedirem desculpas na próxima atualização dos termos de uso.

Nada disso virou lei — pelo menos ainda

Os projetos anunciados estão em diferentes etapas do processo legislativo e não provocam mudanças imediatas para usuários ou empresas.

Alguns foram apenas apresentados e enviados a comissões. Outros ainda aparecem como textos em discussão. Para virar lei, uma proposta precisa avançar pelo Congresso, obter aprovação nas duas casas e receber a sanção presidencial.

Muitos projetos apresentados nunca chegam a uma votação final.

Ainda assim, eles funcionam como um mapa das principais pressões políticas em torno da inteligência artificial nos Estados Unidos:

• proteção de crianças e adolescentes;

• controle sobre dados pessoais;

• identificação de conteúdo sintético;

• responsabilidade por decisões automatizadas;

• consumo de energia e água;

• impacto dos data centers nas comunidades;

• uso da IA por órgãos públicos.

As empresas de tecnologia talvez consigam influenciar como essas regras serão escritas. O que está ficando mais difícil é convencer todo mundo de que nenhuma regra precisa existir.

A era do “lança primeiro e corrige depois” começa a encontrar resistência

O conjunto de propostas mostra que a inteligência artificial entrou em uma nova fase política.

Nos primeiros anos da IA generativa, o debate foi dominado por demonstrações impressionantes, investimentos bilionários e promessas de transformação. Agora, governos começam a perguntar quem paga pela energia, quem responde por um erro, como os dados são usados e o que acontece quando uma máquina convincente demais encontra uma pessoa vulnerável.

O Congresso norte-americano quer inteligência artificial rápida o suficiente para ajudar a combater o câncer e controlada o bastante para não transformar cada usuário em material gratuito de treinamento.

Não é exatamente uma contradição.

É o momento em que a tecnologia deixa a apresentação de PowerPoint e começa a encontrar o mundo real aquele lugar inconveniente onde existem leis, contas de luz, crianças, hospitais, impostos e consequências.