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IA não é estratégia: 88% das empresas já usam a tecnologia, mas transformar isso em valor ainda é exceção

**Categoria editorial:** Inteligência Artificial | Negócios e Estratégia
IA não é estratégia: 88% das empresas já usam a tecnologia, mas transformar isso em valor ainda é exceção
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A inteligência artificial deixou de ser uma novidade experimental nas empresas.
O problema é que adoção não significa transformação — e muito menos vantagem competitiva.
A discussão ganhou novo fôlego depois de um artigo de opinião assinado por Carolina Abrantes, cofundadora da consultoria Bridge & Co., defender uma distinção aparentemente simples, mas frequentemente ignorada no ambiente corporativo: **IA não é estratégia**.
A tecnologia pode acelerar uma estratégia, ampliar capacidades, reduzir custos, redesenhar produtos e até modificar a estrutura econômica de um setor.
Mas comprar licenças de modelos generativos, liberar copilotos para funcionários ou criar meia dúzia de agentes autônomos não responde à pergunta mais importante de uma empresa: **onde, exatamente, está o valor que ela pretende criar?**
E os números mais recentes tornam essa discussão ainda mais relevante.
A pesquisa global da McKinsey sobre inteligência artificial publicada em novembro de 2025 mostrou que 88% dos entrevistados afirmaram que suas organizações já utilizavam IA regularmente em pelo menos uma função de negócio.
Um ano antes, eram 78%.
À primeira vista, parece uma marcha quase irreversível em direção à empresa automatizada.
Quando se observa o que acontece depois da adoção, porém, a história muda.
Todo mundo comprou IA. Poucos reorganizaram a empresa
Apesar de quase nove em cada dez organizações pesquisadas relatarem algum uso da tecnologia, somente aproximadamente um terço havia começado a escalar seus programas de inteligência artificial pela empresa.
Mais revelador ainda: 39% dos participantes atribuíram algum impacto no EBIT — o lucro operacional antes de juros e impostos — ao uso de IA.
Entre aqueles que perceberam impacto, a maioria afirmou que menos de 5% do EBIT da organização estava relacionado à tecnologia.
Isso expõe uma diferença importante entre **utilizar inteligência artificial** e **operar uma organização transformada pela inteligência artificial**.
Uma empresa pode instalar um copiloto de programação e continuar desenvolvendo software exatamente da mesma maneira.
Pode colocar um chatbot no atendimento e manter intacto um processo ruim de pós-venda.
Pode gerar relatórios automaticamente e continuar tomando decisões com indicadores inadequados.
Pode automatizar vinte etapas de um processo que, depois de uma análise séria, talvez devesse ter apenas cinco.
Nesse cenário, a IA não resolve a ineficiência.
Ela apenas faz a ineficiência acontecer mais rápido.
A própria McKinsey identificou o redesenho de fluxos de trabalho como uma das características mais associadas às organizações que conseguem extrair resultados mais significativos da tecnologia.
Essa diferença é crucial.
Automatizar uma tarefa é perguntar como uma pessoa pode executar aquela tarefa mais rapidamente.
Redesenhar um processo é perguntar por que aquela tarefa ainda precisa existir.
É neste segundo movimento que começam as mudanças realmente interessantes.
O erro de transformar ferramentas em estratégia
A corrida corporativa pela inteligência artificial reproduz um comportamento conhecido na história da tecnologia.
Quando surge uma infraestrutura capaz de provocar mudanças profundas, a primeira reação costuma ser utilizá-la para reproduzir processos antigos.
Foi assim com computadores pessoais.
Foi assim com a internet.
Foi assim com a computação em nuvem.
E acontece novamente com a IA.
Uma empresa que simplesmente troca um funcionário digitando respostas por um modelo de linguagem pode conseguir eficiência operacional.
Isso pode ser economicamente importante.
Mas eficiência, isoladamente, é uma vantagem cada vez mais difícil de sustentar.
Se uma organização compra acesso ao mesmo modelo, à mesma infraestrutura de nuvem e às mesmas ferramentas disponíveis para seus concorrentes, nada impede que os demais façam exatamente a mesma coisa.
O ganho deixa rapidamente de ser diferencial e passa a ser requisito mínimo para continuar competindo.
Essa talvez seja uma das questões menos confortáveis da atual corrida da inteligência artificial: **boa parte da tecnologia que está sendo apresentada como vantagem competitiva tende a se transformar em commodity.**
Modelos podem mudar.
Preços de tokens podem cair.
APIs podem ser substituídas.
Recursos considerados extraordinários hoje podem aparecer integrados gratuitamente a um sistema operacional ou pacote corporativo amanhã.
Nesse ambiente, possuir IA não é necessariamente possuir vantagem.
A vantagem pode estar em algo muito menos vistoso.
Dados proprietários.
Processos difíceis de reproduzir.
Conhecimento acumulado.
Integrações internas.
Relacionamento com clientes.
Distribuição.
Marca.
Velocidade de execução.
Capacidade de transformar todas essas peças em um sistema que utiliza IA melhor do que o concorrente.
O que significa conectar IA ao negócio
Uma implementação madura deveria começar antes da escolha do modelo.
Primeiro existe um problema.
Depois existe um indicador.
Só então deveria existir uma solução tecnológica.
Se uma empresa pretende reduzir o tempo necessário para analisar contratos, por exemplo, o objetivo não deveria ser simplesmente “implementar IA jurídica”.
Ela precisa saber quanto tempo o processo consome atualmente, quais etapas apresentam maior risco, qual percentual de revisão humana continuará necessário, quanto custa cada análise, qual nível de erro pode ser tolerado e o que acontecerá quando o sistema estiver errado.
A partir daí, torna-se possível decidir se o problema exige um grande modelo de linguagem, um sistema de recuperação de informações com RAG, regras determinísticas, automação tradicional, integração entre bancos de dados ou uma combinação desses elementos.
Nem todo problema corporativo é um problema de inteligência artificial.
Essa frase deveria estar pendurada em mais salas de reunião.
Existem situações em que uma consulta SQL bem construída resolve melhor.
Outras exigem uma API.
Outras podem ser solucionadas reorganizando responsabilidades entre departamentos.
Em alguns casos, uma planilha que finalmente utilize dados corretos pode produzir mais valor do que um agente autônomo sofisticado conectado a informações ruins.
Tecnologia apropriada é diferente de tecnologia impressionante.
Dados ruins continuam sendo dados ruins agora em velocidade de IA
A infraestrutura necessária para uma IA corporativa eficiente também costuma receber menos atenção do que os modelos.
Um sistema generativo conectado ao ambiente interno precisa encontrar informações, compreender permissões, identificar usuários, consultar sistemas corporativos, registrar ações e devolver resultados em um contexto adequado.
Isso exige arquitetura.
Dados precisam estar acessíveis.
Documentos precisam possuir alguma organização.
Identidades precisam ser controladas.
Sistemas precisam conversar.
Logs precisam existir.
Permissões precisam fazer sentido.
E alguém precisa saber quem é responsável quando alguma coisa dá errado.
Colocar um agente de IA sobre uma infraestrutura fragmentada não elimina essas limitações.
Em determinadas situações, amplia todas elas.
Imagine um funcionário que possui acesso indevido a documentos de um departamento.
Em um ambiente tradicional, talvez seja necessário que ele encontre manualmente aqueles arquivos.
Quando um agente recebe permissão para pesquisar dezenas de repositórios simultaneamente, a mesma falha de controle pode se transformar em capacidade automatizada de localizar, correlacionar e resumir informações às quais aquele usuário jamais deveria ter acesso.
A IA não criou necessariamente a vulnerabilidade.
Ela aumentou sua escala.
Governança deixa de ser burocracia quando a IA começa a agir
Esse problema se torna ainda mais importante com a expansão dos agentes de inteligência artificial.
Chatbots tradicionais normalmente respondem.
Agentes podem executar.
Eles podem consultar bancos de dados, abrir chamados, enviar mensagens, modificar sistemas, gerar código, iniciar processos ou acionar outras ferramentas.
A mudança parece pequena na interface.
Tecnicamente, é enorme.
Quando um modelo deixa de apenas produzir texto e recebe ferramentas capazes de modificar o ambiente, um erro probabilístico pode virar uma ação concreta.
Por isso, organizações precisam definir limites de autonomia, autenticação, segregação de permissões, trilhas de auditoria, validação humana e procedimentos de interrupção.
Também precisam decidir quais ações podem ser executadas automaticamente e quais exigem aprovação.
Essa discussão não deveria ocorrer depois do incidente.
Estruturas como o AI Risk Management Framework do NIST tratam governança, identificação, medição e gerenciamento de riscos como componentes do ciclo de vida da inteligência artificial.
É uma mudança importante de perspectiva.
Governança não é um formulário preenchido depois que o projeto terminou.
Ela faz parte da arquitetura.
A diferença entre economizar dinheiro e criar vantagem competitiva
Existe ainda uma segunda camada desse debate.
Mesmo quando a IA funciona perfeitamente, reduzir custos não significa necessariamente criar uma vantagem duradoura.
Se todos os bancos automatizarem determinada rotina administrativa com tecnologias semelhantes, todos podem reduzir despesas.
O setor inteiro se torna mais eficiente.
Mas nenhum banco necessariamente conquistou uma posição estratégica exclusiva por causa disso.
Essa é uma distinção particularmente importante em 2026.
O uso operacional da IA está se tornando progressivamente acessível.
Consequentemente, os projetos com maior potencial estratégico tendem a migrar para áreas capazes de modificar produtos, serviços, canais de distribuição e modelos econômicos.
Uma seguradora pode utilizar IA para redigir e-mails mais rapidamente.
Ou pode reconstruir completamente a maneira como calcula risco, detecta fraude e oferece produtos.
Uma indústria pode gerar apresentações automaticamente.
Ou pode combinar sensores, manutenção preditiva, visão computacional e planejamento para reorganizar sua produção.
Uma empresa de software pode usar IA para completar código.
Ou pode redesenhar seu produto para que tarefas que anteriormente exigiam dezenas de interações sejam realizadas por um agente.
As duas empresas das comparações estão utilizando inteligência artificial.
Mas somente uma delas está questionando a arquitetura do próprio negócio.
O abismo entre experimentação e resultado
Uma pesquisa da Boston Consulting Group publicada em 2025 encontrou uma divisão ainda mais expressiva.
Segundo o levantamento, aproximadamente 5% das empresas analisadas estavam conseguindo gerar valor com IA em escala.
Outros 35% encontravam-se em processo de expansão e começavam a capturar resultados.
Os 60% restantes relatavam pouco ou nenhum valor material, mesmo depois de investimentos relevantes.
Os números não significam que 95% dos projetos de IA fracassaram.
Essa interpretação seria incorreta.
O que eles indicam é algo mais interessante: existe uma diferença gigantesca entre realizar projetos de inteligência artificial e transformar a capacidade tecnológica em resultado organizacional amplo.
E essa diferença provavelmente será uma das grandes disputas empresariais dos próximos anos.
A barreira inicial para experimentar IA caiu brutalmente.
A barreira para construir uma empresa capaz de utilizá-la profundamente continua alta.
Quem pode ficar para trás
Existe uma consequência dessa corrida que costuma receber menos atenção.
Grandes empresas possuem mais recursos para construir infraestrutura de dados, contratar especialistas, integrar sistemas antigos e experimentar diferentes modelos.
Organizações menores têm hoje acesso a ferramentas extraordinariamente poderosas por preços que seriam inimagináveis poucos anos atrás.
Isso democratiza capacidade.
Mas não necessariamente democratiza maturidade.
Uma pequena empresa pode ter acesso ao mesmo modelo generativo utilizado por uma multinacional.
Ela provavelmente não possui, porém, a mesma infraestrutura de dados, segurança, processos de avaliação, equipe jurídica, especialistas em machine learning ou orçamento para testar centenas de possibilidades.
Existe, portanto, um paradoxo.
A IA reduz algumas barreiras tecnológicas enquanto pode aumentar a importância de capacidades organizacionais que demoram anos para ser construídas.
Empresas menores também possuem uma vantagem: normalmente carregam menos sistemas legados e estruturas burocráticas.
Em alguns casos, podem reconstruir seus processos ao redor da IA mais rapidamente do que organizações gigantescas tentando conectar agentes modernos a décadas de infraestrutura acumulada.
A disputa está longe de estar definida.
Análise da equipe
A tese de que “IA não é estratégia” é correta, mas merece uma pequena expansão.
IA também não deveria ser reduzida ao papel de simples ferramenta.
Tecnologias de propósito geral podem modificar aquilo que uma empresa é capaz de fazer, reduzir custos de coordenação e abrir produtos ou modelos de negócio anteriormente inviáveis.
O erro está nos dois extremos.
No primeiro, empresas acreditam que comprar inteligência artificial equivale a possuir uma estratégia.
No segundo, tratam a tecnologia apenas como mais um software destinado a aumentar produtividade.
Nenhuma das duas interpretações parece suficiente.
A inteligência artificial deve ser entendida como **capacidade tecnológica que precisa ser incorporada à estratégia empresarial**.
Isso significa perguntar não apenas “onde conseguimos automatizar?”, mas também “o que agora se tornou possível fazer que antes não era economicamente viável?”.
Essa mudança de pergunta pode separar empresas que economizarão alguns pontos percentuais em determinadas operações daquelas que conseguirão criar produtos, serviços ou estruturas completamente diferentes.
A história da transformação digital está cheia de organizações que instalaram novas tecnologias sem transformar a maneira como operavam.
A IA oferece uma oportunidade de repetir exatamente o mesmo erro — desta vez muito mais rapidamente.
O próximo indicador importante não será quantas empresas usam IA
A taxa de adoção provavelmente perderá relevância.
Quando praticamente todas as empresas utilizarem algum tipo de inteligência artificial, perguntar quem “usa IA” será tão informativo quanto perguntar hoje quais companhias utilizam internet.
O que importará será outra coisa.
Quais processos foram realmente redesenhados.
Quanto do resultado financeiro pode ser atribuído à tecnologia.
Quais produtos passaram a existir por causa dela.
Quanto da infraestrutura depende de fornecedores externos.
Quais dados permanecem sob controle da organização.
Que decisões podem ser delegadas aos sistemas.
Quais erros estão acontecendo em produção.
E, principalmente, quais capacidades foram construídas que um concorrente não consegue simplesmente contratar com um cartão de crédito.
Esse é o ponto em que a discussão deixa de ser sobre modelos e começa a ser sobre estratégia.
A corrida corporativa pela IA já começou.
Mas comprar a tecnologia foi a parte fácil.
Agora começa o trabalho difícil: descobrir o que fazer com ela.
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