noticias

O cancelamento do Montenegro MK1 expõe, mais uma vez, as fragilidades crônicas da gestão de projetos espaciais no Brasil.

O cancelamento do Montenegro MK1 expõe, mais uma vez, as fragilidades crônicas da gestão de projetos espaciais no Brasil.

Um foguete que nunca decolou, R$ 24,5 milhões sem comprovação clara e um consórcio privado que desandou em meio a bloqueios de contas e exigências de devolução integral de recursos.

O caso não é apenas sobre dinheiro desaparecido das planilhas.

É sobre a incapacidade recorrente de transformar ambição técnica em execução confiável.

Contexto: a promessa do VLPP e o modelo “New Space” brasileiro

O Programa Veículo Lançador de Pequeno Porte (VLPP) nasceu com a intenção de inserir o Brasil no mercado de lançamentos comerciais de pequenos satélites.

A ideia seguia a lógica do “New Space”: menos dependência estatal, mais protagonismo de empresas privadas, redução de custos e agilidade.

O consórcio selecionado em 2023 era liderado pela Akaer, com participação das startups Acrux Aerospace, Breng Engenharia e Essado de Morais.

Investimento previsto: cerca de R$ 180 milhões, majoritariamente via Finep (Financiadora de Estudos e Projetos).

O lançador principal, Montenegro MK1, teria aproximadamente 10 metros de altura, três estágios, diâmetro de 0,5 metro e massa total de 2,5 toneladas.

Operaria a partir de Alcântara, explorando a vantagem equatorial para órbitas de baixa inclinação com menor gasto de combustível.

Na teoria, tudo alinhado com o que o setor privado global já pratica.

Na prática, o projeto mal saiu do papel.

O nó financeiro: R$ 41,3 milhões repassados e só R$ 16,7 milhões comprovados

A Finep liberou R$ 41,3 milhões em parcela única logo após a assinatura do contrato, em dezembro de 2023.

A Akaer, como líder do consórcio, era responsável por gerir e distribuir esses recursos entre as parceiras.

Até maio de 2025, a prestação de contas apresentou apenas R$ 16,7 milhões devidamente justificados.

Os R$ 24,5 milhões restantes não tiveram comprovação suficiente, apesar de cobranças formais da Finep.

As startups parceiras relataram atrasos de até seis meses nos repasses, falta de comunicação sobre o depósito inicial e dificuldades para pagar salários e fornecedores.

Em março de 2025, a Finep bloqueou as contas vinculadas ao projeto.

Em agosto de 2025, rescindiu o contrato, cancelou o Montenegro MK1 e exigiu a devolução integral dos R$ 41,3 milhões.

O caso foi encaminhado ao TCU e à CGU, com abertura de Tomada de Contas Especial.

Mais de 40 profissionais altamente qualificados perderam seus empregos.

As startups tentam se desvincular da responsabilidade pelo montante não comprovado.

A Akaer, em nota pública, invocou sigilo por se tratar de projeto de segurança nacional e afirmou ter agido dentro do contrato e da ética.

A pergunta que permanece: onde está o dinheiro?

Impactos reais: mais um capítulo na longa lista de reveses

O episódio não surge isolado.

Lembra o acidente do VLS-1 em 2003, que matou 21 técnicos em Alcântara e paralisou o programa por anos.

Compara-se com nações como Israel, Coreia do Sul e até Irã, que, com orçamentos comparáveis ou menores, já operam lançadores orbitais.

O Brasil segue restrito a foguetes suborbitais de pesquisa e sondagem.

O que muda na prática com o cancelamento do Montenegro MK1?

Perda de know-how acumulado, desmobilização de equipes especializadas e erosão adicional de confiança no modelo de parceria público-privada para alta tecnologia.

Quem é impactado primeiro? As startups aeroespaciais nacionais, que dependem de contratos governamentais para sobreviver e escalar.

O que pode dar errado daqui para frente? Se os mecanismos de governança não forem reforçados, novos projetos correm o mesmo risco: repasses iniciais generosos, prestação de contas frouxa e final abrupto.

O que ainda ninguém discute abertamente? A fragilidade sistêmica na escolha e fiscalização de líderes de consórcio em projetos de risco tecnológico elevado.

O que sobra: MLBR e VLM-AT como possíveis saídas

Apesar do naufrágio do Montenegro MK1, dois projetos de lançadores seguem em andamento.

O MLBR, desenvolvido pela empresa SENIC, e o VLM-AT, conduzido pela Força Aérea Brasileira.

Segundo a Finep, ambos estão com obrigações em dia e avançam dentro do cronograma.

São as únicas luzes visíveis no horizonte para o sonho de um lançador orbital brasileiro.

Mas luz no fim do túnel não basta.

É preciso que a gestão, a transparência e a accountability sejam tratadas como requisitos técnicos tão rigorosos quanto o próprio motor de foguete.

Caso contrário, o Brasil continuará assinando cheques para projetos que decolam apenas no papel.

E o espaço, mais uma vez, ficará para depois.