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Por dentro da urna eletrônica: como o software transforma o voto em resultado

Para o eleitor, a experiência dura poucos segundos: digitar números, conferir a tela e apertar a tecla verde. Por trás dessa interação aparentemente simples existe uma infraestrutura de software construída para uma tarefa bastante incomum na computação: registrar milhões de escolhas individuais, preservar o sigilo de cada uma delas e, ao mesmo tempo, produzir evidências que permitam fiscalizar diferentes etapas do processo.
A proximidade das Eleições Gerais de 2026 torna esse funcionamento especialmente relevante. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro, e os sistemas que serão utilizados no pleito foram oficialmente assinados digitalmente e lacrados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 4 de setembro. O procedimento encerrou o ciclo de desenvolvimento das versões destinadas à eleição e gerou, entre outros elementos, os resumos digitais que permitem comparar os programas utilizados com aqueles previamente examinados.
A questão técnica mais interessante, portanto, não está apenas em descobrir “qual programa roda na urna”. É entender a cadeia que liga código-fonte, programa executável, equipamento, voto registrado, resultado da seção e totalização.
Existe muito mais software do que aparece na tela
A urna eletrônica não executa um único aplicativo eleitoral. Existe um conjunto de sistemas responsável por diferentes etapas do processo, desde a preparação dos equipamentos até a geração e o tratamento dos arquivos produzidos depois da votação.
Na própria urna, a base é o Uenux, uma distribuição Linux desenvolvida para o ambiente eleitoral. Ela reúne componentes de sistema operacional, como kernel, drivers, bibliotecas e mecanismos de inicialização, sobre os quais são executados os aplicativos responsáveis pela votação.
Isso não significa que exista um computador convencional escondido dentro da urna. O equipamento foi concebido para uma finalidade específica e não oferece ao eleitor o ambiente aberto que encontramos em um notebook ou smartphone.
Também é importante desfazer uma confusão frequente: registrar o voto na urna e transmitir posteriormente os arquivos eleitorais são operações diferentes. A urna utilizada pelo eleitor não depende de uma conexão com a internet para registrar os votos. Outros sistemas e equipamentos participam posteriormente do transporte, recebimento e processamento dos arquivos.
Essa separação importa porque segurança computacional raramente depende de uma única barreira. Dividir funções reduz superfícies de exposição e permite estabelecer controles diferentes para etapas diferentes.
Antes da eleição, o software precisa ser congelado
Existe outro problema clássico de engenharia de software: não adianta alguém examinar determinado código-fonte se, no dia da eleição, outro programa puder ser executado.
É aqui que entram compilação, assinatura digital, lacração e hashes.
O código-fonte contém as instruções escritas pelos desenvolvedores. Para funcionar na máquina, ele precisa ser transformado em arquivos executáveis por meio da compilação. A fiscalização precisa, portanto, estabelecer uma relação verificável entre aquilo que foi examinado e aquilo que efetivamente será instalado.
Nas Eleições 2026, a Cerimônia de Assinatura Digital e Lacração ocorreu em 4 de setembro. Segundo o TSE, foram produzidos resumos digitais dos sistemas e realizadas as assinaturas dos programas; as mídias oficiais foram posteriormente lacradas e armazenadas.
Os executáveis também permanecem disponíveis no ambiente utilizado para a inspeção do código, permitindo que entidades fiscalizadoras façam verificações de correspondência.
Não é apenas burocracia eleitoral. É controle de versão aplicado a um sistema crítico.
Hash funciona como uma impressão matemática
Uma das ferramentas utilizadas nesse processo é o hash.
Um algoritmo de hash recebe um arquivo como entrada e produz uma sequência relativamente pequena de caracteres. Se aquele arquivo for alterado, mesmo que a mudança seja mínima, o resultado matemático também tende a mudar.
Isso permite uma pergunta objetiva: o programa encontrado posteriormente é exatamente aquele que havia sido lacrado?
O TSE publicou os hashes dos sistemas das Eleições 2026. A relação não abrange apenas programas diretamente executados nas urnas, mas componentes de outras partes do ecossistema, como sistemas utilizados no transporte e no gerenciamento da totalização.
Assinatura digital e hash não são exatamente a mesma coisa. O hash permite verificar a integridade de determinado conteúdo; a assinatura digital acrescenta elementos criptográficos destinados a autenticar aquilo que foi assinado.
Essa combinação cria uma cadeia verificável entre a versão produzida antes da eleição e aquela encontrada posteriormente.
O que acontece depois de apertar CONFIRMA
Durante a votação, entra em cena um dos arquivos mais importantes para compreender tecnicamente o sistema: o Registro Digital do Voto, conhecido pela sigla RDV.
A Resolução TSE nº 23.751, que disciplina os atos gerais do processo eleitoral de 2026, determina que cada voto digitado seja gravado no RDV, separado por cargo, utilizando mecanismos destinados a preservar o sigilo da votação.
Depois que o eleitor confirma seus votos, o arquivo é atualizado e assinado digitalmente. O sistema também registra informações de horário no arquivo de log.
Existe aqui uma exigência fundamental: guardar os votos sem produzir uma relação capaz de revelar posteriormente qual eleitor escolheu qual candidato.
O sistema precisa preservar simultaneamente registro e anonimato. Isso diferencia o problema eleitoral de aplicações comuns nas quais identificar quem realizou determinada operação é justamente uma das funções do banco de dados.
O resultado nasce dentro de cada seção
Quando a votação termina, os votos são apurados eletronicamente e a urna gera diferentes arquivos. Entre eles está o Boletim de Urna, o BU.
O documento contém informações como identificação da seção e da urna, quantidade de eleitores aptos, número de votantes, votos de cada candidatura, votos por legenda, brancos, nulos e total registrado.
Isso produz uma característica importante da arquitetura: existe um resultado da seção antes da consolidação nacional.
O boletim é impresso no encerramento da votação e também existe em formato digital. Dessa maneira, os números produzidos por uma urna podem posteriormente ser confrontados com aqueles incorporados ao processo de totalização.
A urna, portanto, não calcula sozinha o resultado nacional da eleição. Ela produz o resultado daquela seção. Outros sistemas recebem e consolidam os resultados das diferentes seções eleitorais.
Essa distinção costuma desaparecer nas discussões públicas, mas é central para compreender a arquitetura.
Segurança não significa ausência de vulnerabilidades
Outro erro comum é imaginar que demonstrar segurança significa afirmar que determinado software nunca apresentou — e jamais apresentará — vulnerabilidades.
Nenhum sistema computacional sério deveria depender dessa promessa.
Nas avaliações realizadas para as Eleições 2026, pesquisadores foram convidados a procurar problemas nos sistemas durante o Teste Público de Segurança. Na etapa realizada em dezembro de 2025, foram identificados três achados em três dos 29 planos de ataque efetivamente executados.
De acordo com os relatórios das comissões responsáveis pelo teste, esses achados não comprometeram a integridade ou o sigilo dos votos nem o resultado eleitoral. Os participantes responsáveis pelas descobertas retornaram ao TSE em maio de 2026 para o Teste de Confirmação, destinado a verificar as correções e aprimoramentos implementados.
Esse processo é mais compatível com segurança moderna do que a ideia de um sistema supostamente perfeito.
Encontrar uma vulnerabilidade durante um teste não significa automaticamente comprometer uma eleição. Da mesma maneira, não encontrar uma falha também não demonstra matematicamente que ela não existe. O que interessa é a capacidade de testar hipóteses de ataque, documentar os resultados, corrigir problemas e verificar novamente as correções.
O verdadeiro desafio é construir verificabilidade
Talvez a característica mais incomum de um sistema eleitoral seja que funcionar corretamente não basta.
Um sistema bancário precisa convencer principalmente seus operadores, auditores, reguladores e clientes de que as transações estão corretas. Uma eleição precisa sustentar a confiança de grupos políticos adversários que, por definição, possuem interesses conflitantes no resultado.
Isso muda o problema de engenharia.
Inspeção de código, assinatura digital, hashes, logs, Teste Público de Segurança, Registro Digital do Voto e Boletins de Urna não são mecanismos intercambiáveis. Cada um observa uma parte diferente da cadeia e possui limites próprios.
O valor está justamente na sobreposição.
Um hash pode demonstrar que dois arquivos são idênticos, mas não prova sozinho que o programa não contém erros. Uma inspeção pode encontrar problemas no código, mas precisa existir um mecanismo para demonstrar que o executável instalado corresponde ao código examinado. Um Boletim de Urna permite confrontar o resultado produzido em uma seção com a totalização posterior, mas não substitui a análise das demais etapas.
Segurança surge da composição dessas evidências.
Transparência também precisa ser exercida
Existe ainda um ponto menos confortável e que merece atenção.
Grande parte da documentação técnica, dos procedimentos e das informações sobre o funcionamento do sistema é produzida pela própria Justiça Eleitoral. Isso não invalida esses dados, mas torna especialmente importante que os mecanismos disponíveis para fiscalização sejam efetivamente utilizados por atores externos.
Partidos políticos, Ministério Público, Ordem dos Advogados do Brasil, Congresso Nacional, Controladoria-Geral da União, Polícia Federal, universidades e outras entidades previstas na regulamentação podem participar de diferentes procedimentos de fiscalização.
Quanto maior a participação técnica independente, mais interessante fica o modelo.
Transparência que ninguém examina corre o risco de virar apenas publicação de documentos. Em segurança da informação, disponibilizar evidências é uma parte do processo; submetê-las a escrutínio competente é outra.
Análise da equipe
A urna eletrônica é frequentemente arrastada para uma discussão binária: ou seria absolutamente segura ou completamente vulnerável. Tecnicamente, essa é uma maneira pobre de analisar qualquer sistema computacional.
Software pode conter erros. Hardware pode falhar. Procedimentos podem ser executados incorretamente. Pessoas podem cometer equívocos. Ataques precisam ser considerados. É exatamente por essas possibilidades existirem que sistemas críticos são projetados com controles sobrepostos, registros, verificações e auditorias.
O aspecto relevante da arquitetura eleitoral não é uma suposta promessa de infalibilidade. É a possibilidade de produzir evidências independentes em diferentes pontos do processo.
Para as Eleições 2026, os sistemas passaram por inspeção, testes públicos, correções, compilação, assinatura digital e lacração. Os hashes das versões oficiais estão publicados e o resultado produzido em cada seção gera documentos que podem ser confrontados com etapas posteriores.
Isso não torna desnecessário questionar o sistema. Torna necessário questioná-lo tecnicamente.
Uma democracia ganha pouco quando segurança eleitoral vira profissão de fé — seja para acreditar cegamente, seja para desconfiar sem evidência. O caminho mais sólido é muito menos emocionante e muito mais útil: documentação, teste, auditoria, fiscalização independente e possibilidade de reprodução das verificações.
Quando o eleitor apertar “CONFIRMA” em outubro, portanto, aquela tecla será apenas o momento mais visível de um processo que começou muitos meses antes e continuará depois que a tela da urna informar o fim da votação.
Entender essa cadeia talvez seja mais importante do que decorar qualquer especificação da máquina. Em sistemas críticos, confiança não deveria substituir evidência. O objetivo da boa engenharia é justamente produzir evidências suficientes para que a confiança não precise vir sozinha.
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