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Praxis escolhe o Uruguai para construir sua cidade da era pós-AGI mas a tecnoutopia começa como um bairro de luxo

**Categoria editorial:** Inteligência Artificial e Cultura Digital
Praxis escolhe o Uruguai para construir sua cidade da era pós-AGI mas a tecnoutopia começa como um bairro de luxo
**Linha fina:** Projeto promete mobilizar US$ 1 bilhão em +Colonia e reunir empreendedores, pesquisadores e artistas em uma comunidade concebida para um futuro em que a IA faria grande parte do trabalho humano.
**Palavra-chave principal:** cidade pós-AGI no Uruguai
**Meta description:** Praxis escolhe +Colonia, no Uruguai, para sua primeira comunidade física e promete US$ 1 bilhão em uma cidade pensada para a era pós-AGI.
**Slug:** praxis-cidade-pos-agi-uruguai-mais-colonia
Matéria completa
Durante anos, os responsáveis pela Praxis procuraram um lugar no mapa onde pudessem transformar uma ideia nascida na internet em território físico. Avaliaram regiões do Mediterrâneo, passaram pela Grécia, flertaram publicamente até com a Groenlândia e construíram uma comunidade digital em torno de uma ambição pouco modesta: criar novas formas de viver, produzir cultura e organizar uma sociedade para o mundo que viria depois da inteligência artificial geral.
A busca agora tem endereço.
A Praxis anunciou que escolheu o **Uruguai** para seu primeiro desenvolvimento em escala urbana e fechou parceria com o empreendimento **+Colonia**, instalado às margens do Río de la Plata, próximo a Colonia del Sacramento.
A organização afirma que pretende mobilizar **US$ 1 bilhão durante os próximos três anos**, com os primeiros integrantes chegando a partir de meados de 2027.
A promessa é grandiosa.
Mas é importante separar desde o começo três coisas muito diferentes: uma comunidade online, um empreendimento imobiliário e um novo país.
Até agora, apenas as duas primeiras existem.
+Colonia não é a histórica Colonia del Sacramento
A escolha do nome pode produzir alguma confusão.
Colonia del Sacramento é a conhecida cidade histórica uruguaia, fundada no século XVII e reconhecida como Patrimônio Mundial pela Unesco.
O projeto tecnológico será desenvolvido em **+Colonia**, uma urbanização planejada em Playa El Calabrés, nos arredores da cidade histórica.
O empreendimento não nasceu com a Praxis.
Ele está sendo desenvolvido há alguns anos por investidores argentinos e uruguaios e já possui obras em andamento.
O plano diretor prevê uma área de aproximadamente **515 hectares**, mais de **7 quilômetros de costa** e mais de metade do território destinada a espaços verdes e recreativos.
A proposta urbanística utiliza conceitos conhecidos das chamadas cidades de 15 minutos: moradia, serviços, lazer e áreas de trabalho devem ficar suficientemente próximos para reduzir grandes deslocamentos.
Também estão previstos internet de alta velocidade, infraestrutura digital, espaços de trabalho, educação, comércio e até data center.
É dentro desse projeto muito maior que a Praxis pretende instalar sua primeira comunidade física.
E afinal, o que é a Praxis?
A própria organização se apresenta de maneira bastante mais ambiciosa do que uma incorporadora imobiliária.
Ela se define como uma **“nação digital”**.
A ideia é começar formando uma comunidade na internet, reunir pessoas com determinados interesses culturais e tecnológicos e, posteriormente, concentrar parte delas em um território físico.
O conceito tem parentesco com aquilo que o setor tecnológico chama de **network state**, ou Estado em rede.
Em vez de começar com território, fronteiras e governo para depois formar uma população, o raciocínio funciona praticamente ao contrário.
Primeiro nasce a comunidade digital.
Depois vêm capital, instituições e identidade compartilhada.
Finalmente, tenta-se construir uma cidade física onde parte dessa comunidade possa morar.
A Praxis diz possuir mais de **150 mil integrantes** em sua rede global. Responsáveis pelo projeto afirmam ainda que aproximadamente 2.700 pessoas já manifestaram interesse ou compromisso em se mudar para o empreendimento uruguaio.
Esses números, entretanto, não representam uma população já instalada.
Por enquanto são manifestações de interesse de uma comunidade essencialmente digital.
A cidade é baseada em uma aposta gigantesca sobre a IA
O aspecto mais incomum do projeto aparece quando a Praxis explica por que acredita que cidades desse tipo serão necessárias.
A organização não está simplesmente apostando que inteligência artificial ficará um pouco melhor.
Ela trabalha com um cenário muito mais radical.
Sua premissa é que eventualmente surgirá a **AGI — Artificial General Intelligence**, ou inteligência artificial geral — capaz de executar uma parcela enorme das atividades intelectuais que hoje dependem de seres humanos.
Se isso ocorrer, argumenta a Praxis, a relação entre trabalho e localização mudará profundamente.
Pessoas poderiam produzir riqueza com muito menos trabalho tradicional, sistemas automatizados realizariam grande parte das atividades econômicas e cidades deixariam de competir apenas por empregos.
Passariam a competir principalmente por qualidade de vida, cultura, arquitetura, comunidade e experiências.
Essa é a teoria.
O problema é que **AGI continua sendo uma hipótese tecnológica**.
Não existe atualmente consenso científico sobre quando ela será alcançada, quais capacidades caracterizariam sua existência ou sequer se os atuais métodos de inteligência artificial conseguirão chegar até ela.
A cidade, portanto, está sendo planejada para uma transformação que seus criadores consideram provável, mas cuja data e formato ninguém conhece.
A inteligência artificial financiaria uma nova Renascença
A visão econômica da Praxis vai ainda mais longe.
Dryden Brown, cofundador e CEO da organização, argumenta que a AGI poderia criar uma quantidade extraordinária de riqueza.
Parte desse dinheiro, segundo a proposta, deveria financiar arquitetura, música, artes, pesquisa e instituições culturais.
A organização compara sua ambição ao papel desempenhado pela riqueza comercial e bancária na Florença renascentista.
A ideia é que a riqueza produzida pela inteligência artificial possa exercer função semelhante.
Residências vendidas dentro da comunidade ajudariam a financiar bolsas para artistas, programas culturais, residências criativas e instituições.
É uma tentativa curiosa de combinar automação extrema com uma defesa justamente das atividades humanas mais difíceis de medir economicamente.
Quanto mais máquinas produziriam, na visão do projeto, mais seres humanos poderiam dedicar tempo àquilo que não querem delegar às máquinas.
É uma hipótese cultural tão importante para a Praxis quanto a própria tecnologia.
Só que a cidade pós-AGI começa com apartamentos e resort
Quando a visão filosófica encontra o concreto, porém, o projeto se torna muito mais familiar.
A primeira fase anunciada pela Praxis prevê **residências privadas, hotelaria, áreas gastronômicas, espaços culturais e um resort à beira do Río de la Plata**.
A arquitetura apresentada até agora aposta em pedra, bronze, jardins, pátios e inspiração no racionalismo italiano.
Não há carros voadores.
Não há robôs administrando ruas.
E certamente não existe uma AGI governando a população.
Na prática, a primeira manifestação física dessa suposta sociedade pós-inteligência artificial se parece bastante com um empreendimento imobiliário sofisticado.
Isso não necessariamente invalida o projeto.
Mas coloca sua ambição no devido tamanho.
Antes de reinventar a civilização, a Praxis precisa entregar prédios.
US$ 1 bilhão é plano de investimento, não dinheiro já aplicado
A cifra anunciada também merece precisão.
A Praxis afirma que pretende **mobilizar US$ 1 bilhão durante os próximos três anos** para residências, infraestrutura, hotelaria e áreas comerciais e culturais.
Isso não significa que US$ 1 bilhão já esteja depositado e disponível para construção.
Em 2024, o grupo anunciou também **US$ 525 milhões em compromissos de financiamento**, incluindo US$ 500 milhões associados à GEM Digital e outros recursos provenientes do setor financeiro ligado a criptoativos.
Parte desse financiamento foi estruturada por etapas e condicionada ao avanço do projeto.
Existe uma diferença relevante entre capital anunciado, linhas de financiamento, compromissos condicionados e dinheiro efetivamente investido em obras.
Projetos urbanos gigantescos normalmente atravessam todos esses estágios durante muitos anos.
Por isso, mais importante que acompanhar os números prometidos será observar quanto capital realmente chega ao terreno.
A “nação digital” continuará sendo Uruguai
Há também uma contradição aparente entre a linguagem utilizada historicamente pela Praxis e o projeto anunciado no Uruguai.
A organização fala em construir sua própria “nação”, desenvolver novas instituições e criar mecanismos digitais de coordenação coletiva.
Seu site chega a tratar o projeto como caminho para uma entidade política autônoma.
Mas a instalação uruguaia possui limites muito mais concretos.
A própria Praxis afirma que suas instituições comunitárias funcionarão **dentro da Constituição, das leis e da estrutura democrática do Uruguai**.
Isso significa que +Colonia não se transforma em território soberano.
Os moradores continuarão submetidos à legislação uruguaia.
Polícia, Justiça, direitos fundamentais, contratos, propriedade, regras trabalhistas e demais funções do Estado não desaparecem porque uma comunidade decidiu se chamar de “nação digital”.
Por enquanto, portanto, a soberania pertence muito mais ao discurso tecnológico do que ao território.
IA pode ajudar a administrar a comunidade
Isso não significa que tecnologia estará ausente da governança interna.
A Praxis pretende desenvolver ferramentas para que moradores proponham projetos, expressem preferências e coordenem o financiamento de iniciativas coletivas.
Inteligência artificial faria parte dessa infraestrutura.
A organização também menciona uma espécie de orçamento computacional e mecanismos digitais para ajudar a comunidade a coordenar decisões.
Mas novamente existe uma diferença importante entre **usar IA na administração** e **ser governado por IA**.
Não há atualmente uma arquitetura pública detalhada mostrando algoritmos decidindo questões legais, impostos, direitos ou punições.
E seria extremamente improvável que um sistema privado pudesse simplesmente assumir funções reservadas ao Estado uruguaio.
O experimento mais plausível está em outra camada: administração do condomínio, projetos comunitários, distribuição de recursos privados e coordenação entre residentes.
Mesmo isso já seria interessante o suficiente para acompanhar.
Quem terá condições de morar nessa utopia?
Existe, porém, uma questão que quase sempre aparece quando cidades privadas são apresentadas como laboratórios para o futuro.
Quem entra?
As primeiras imagens e descrições divulgadas pela Praxis mostram residências sofisticadas, paisagismo cuidadosamente planejado e hotelaria inspirada em empreendimentos de luxo.
Isso cria uma tensão entre duas promessas.
De um lado existe a narrativa de construir novas instituições culturais e ampliar as possibilidades humanas na era da IA.
Do outro existe um produto imobiliário que provavelmente terá barreiras econômicas importantes de entrada.
A Praxis afirma que pretende financiar artistas, pesquisadores e outros participantes que não necessariamente poderiam pagar para viver no local.
Esse mecanismo pode amenizar parte da questão.
Ainda assim, preço de moradia, acesso público aos espaços, relação com trabalhadores locais e integração econômica com o restante de Colonia serão indicadores muito mais reveladores que renderizações arquitetônicas.
Uma cidade não é formada apenas por seus proprietários.
Também é formada por quem constrói, limpa, atende, ensina, transporta, cozinha e mantém sua infraestrutura funcionando.
O Uruguai oferece exatamente o que a Praxis procurava
A escolha uruguaia também não aconteceu por acaso.
A organização diz ter valorizado estabilidade institucional, segurança jurídica, disponibilidade territorial e a proximidade com Buenos Aires e Montevidéu.
Colonia possui outra vantagem geográfica bastante particular.
Embora esteja em outro país, fica do outro lado do Río de la Plata em relação à capital argentina, podendo ser alcançada de barco em cerca de uma hora dependendo da operação.
Isso permite imaginar uma comunidade relativamente isolada fisicamente e, simultaneamente, conectada a uma das maiores metrópoles da América Latina.
Para profissionais que trabalham remotamente, investidores internacionais e empresas digitais, essa combinação é bastante atraente.
A paisagem tranquila também ajuda a vender a ideia de uma cidade que pretende competir pela experiência de viver, e não simplesmente pela existência de empregos próximos.
A verdadeira experiência pode ser social, não tecnológica
A parte mais interessante de +Colonia talvez não esteja na velocidade da internet ou em algum sistema de inteligência artificial.
Está na pergunta que o projeto involuntariamente coloca.
**O que acontece com uma cidade quando trabalho deixa de ser sua principal força organizadora?**
Durante séculos, cidades cresceram próximas de portos, fábricas, minas, universidades, centros administrativos ou grandes mercados.
Pessoas se mudavam porque precisavam estar fisicamente perto das oportunidades econômicas.
Trabalho remoto já começou a enfraquecer essa relação.
Uma eventual automação muito mais profunda poderia ampliá-la drasticamente.
Se parte significativa da população puder escolher onde morar sem perguntar primeiro “onde está meu emprego?”, cidades precisarão competir por outros atributos.
Natureza.
Cultura.
Serviços.
Segurança.
Comunidade.
Arquitetura.
Educação.
Relacionamentos.
Nesse ponto, a experiência uruguaia se torna interessante mesmo que a AGI demore décadas para aparecer.
Análise da equipe
A Praxis tem todos os ingredientes de uma história que a indústria de tecnologia adora contar: inteligência artificial, criptomoedas, investidores, arquitetura grandiosa, uma “nação digital” e a promessa nada modesta de redesenhar a civilização.
É justamente por isso que convém olhar para o projeto pelo lado menos futurista possível.
Concreto.
Moradores.
Infraestrutura.
Leis.
Dinheiro efetivamente investido.
É nesse nível que saberemos se +Colonia representa alguma coisa nova ou apenas uma versão particularmente sofisticada de um condomínio tecnológico.
A própria expressão “cidade pós-AGI” merece cautela.
Ela pressupõe que uma tecnologia cuja existência futura ainda é incerta transformará profundamente economia, trabalho e sociedade.
Pode acontecer.
Pode acontecer de maneira completamente diferente.
E pode demorar muito mais do que seus defensores esperam.
Ainda assim, existe algo genuinamente interessante nessa tentativa.
Quase toda discussão atual sobre inteligência artificial pergunta o que acontecerá com empregos, empresas e produtividade.
A Praxis está fazendo outra pergunta: **se as máquinas realmente assumirem grande parte do trabalho, para que servirá uma cidade?**
Sua resposta envolve beleza, cultura, comunidade e criação humana.
É uma resposta sedutora.
Mas a primeira grande prova não acontecerá em algum futuro dominado por inteligências artificiais gerais.
Acontecerá já em 2027, quando pessoas reais começarem a chegar a um terreno real no Uruguai e descobrirem se aquela enorme ideia funciona fora da internet.
Porque construir uma tecnoutopia em uma apresentação é relativamente simples.
Construir uma cidade continua sendo uma das coisas mais humanas — e difíceis — que existem.
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