noticias

Seis tecnologias que o hype enterrou mas algumas venceram longe dos holofotes

Seis tecnologias que o hype enterrou  mas algumas venceram longe dos holofotes

**TVs 3D, memória de bolha, Transputers e processadores Java foram apresentados como caminhos inevitáveis da computação. Alguns desapareceram porque eram caros, inconvenientes ou chegaram no momento errado. Outros apenas deixaram de ocupar as manchetes e passaram a trabalhar silenciosamente dentro de produtos comuns. A história da tecnologia mostra que fracassar no mercado não é o mesmo que não deixar legado.**

A indústria de tecnologia possui uma habilidade particular para transformar possibilidades em destinos inevitáveis. Um laboratório demonstra um protótipo, fabricantes apresentam produtos iniciais, analistas projetam mercados bilionários e, em pouco tempo, a novidade deixa de ser uma alternativa para tornar-se “o futuro”.

O roteiro é conhecido. A tecnologia aparece numa feira, recebe uma sigla memorável e ganha apresentações nas quais todas as limitações são tratadas como problemas temporários. O preço cairá. A bateria melhorará. Os consumidores aprenderão. O conteúdo chegará. Os desenvolvedores aderirão. A infraestrutura será construída.

Algumas dessas previsões se confirmam. Outras desaparecem discretamente, deixando aparelhos incompatíveis, investidores frustrados e consumidores tentando lembrar por que precisavam usar óculos para assistir ao jornal na sala.

A lista publicada pelo Meio Bit reúne seis exemplos: Fuzzy Logic, memória de bolha, Transputers, TV 3D, e-paper e processadores dedicados a Java. O agrupamento é interessante, mas esconde uma distinção fundamental. Nem todas “não chegaram a lugar nenhum”.

Algumas fracassaram como produtos de massa, mas sobreviveram como tecnologias de nicho. Outras perderam a marca e tiveram suas ideias absorvidas por sistemas posteriores. Há também aquelas que simplesmente foram atropeladas por soluções mais baratas e flexíveis.

Tecnologias não morrem de uma única maneira.

Às vezes, o produto desaparece e o conceito vence. Em outras, a engenharia funciona perfeitamente, mas resolve um problema que o mercado não considera importante. Há ainda o caso mais constrangedor: a novidade é criada para corrigir uma limitação que outra tecnologia elimina antes que a primeira consiga amadurecer.

Fuzzy Logic: a revolução que virou botão de máquina de lavar

A Lógica Fuzzy surgiu a partir do trabalho de Lotfi Zadeh, que publicou em 1965 sua teoria dos conjuntos nebulosos. A ideia atacava uma limitação dos sistemas clássicos: o mundo real nem sempre cabe em categorias absolutas.

Uma pessoa pode ser alta sem existir uma fronteira universal separando “alto” de “não alto”. Uma sala pode estar confortável, um pouco quente ou extremamente quente. Um tecido pode estar pouco sujo ou muito sujo. Essas condições possuem gradações.

A lógica convencional trabalha bem com verdadeiro e falso. A Fuzzy Logic permite representar graus de pertencimento entre esses extremos.

Isso parecia abrir caminho para computadores mais próximos do raciocínio humano. Em vez de depender apenas de valores rígidos, sistemas poderiam trabalhar com expressões linguísticas, incerteza e decisões graduais.

A promessa acabou crescendo além da aplicação prática. Fuzzy Logic passou a ser apresentada como componente de uma inteligência computacional mais natural, capaz de lidar com a ambiguidade do mundo de maneira quase intuitiva.

Essa revolução ampla não aconteceu.

Redes neurais, sistemas probabilísticos e aprendizado de máquina assumiram grande parte das áreas que seriam associadas à inteligência artificial moderna. A Fuzzy Logic não se transformou na linguagem universal dos computadores nem substituiu a programação convencional.

Mas também não morreu.

Ela foi incorporada a sistemas de controle nos quais regras aproximadas são mais úteis do que modelos matemáticos excessivamente complexos. Máquinas de lavar podem ajustar o ciclo conforme quantidade de roupa, turbidez da água e características detectadas pelos sensores. Sistemas de climatização podem modular a potência sem alternar bruscamente entre ligado e desligado. Câmeras, equipamentos industriais e controles de transporte utilizaram abordagens semelhantes.

O sistema não precisa compreender o significado filosófico de “muito sujo”. Precisa apenas converter diferentes leituras em uma ação adequada.

O fracasso ocorreu na narrativa, não na tecnologia.

Fuzzy Logic não se tornou uma nova forma universal de computação. Tornou-se uma ferramenta específica, confiável e suficientemente discreta para que a maior parte das pessoas a utilize sem saber.

Isso talvez seja menos glorioso que revolucionar a inteligência artificial. Também é muito mais útil que desaparecer.

Memória de bolha: uma solução elegante esmagada pela economia

A memória de bolha magnética parecia possuir quase tudo que um sistema de armazenamento deveria oferecer no final dos anos 1960 e durante a década seguinte.

Os dados eram representados por pequenas regiões magnetizadas — as “bolhas” — movimentadas dentro de uma película de material magnético. A tecnologia era não volátil, mantendo informações sem energia contínua, e não dependia de discos giratórios, cabeças móveis ou outros mecanismos frágeis.

Num período em que discos rígidos eram grandes e sensíveis, um armazenamento sólido, compacto e resistente parecia especialmente atraente para aeronaves, equipamentos militares e máquinas submetidas a vibração.

O funcionamento era engenhoso. O problema estava na comparação com aquilo que apareceu depois.

Memórias de bolha eram caras, relativamente lentas e difíceis de fabricar em grandes capacidades. Não competiam com RAM em velocidade e começaram a perder espaço para discos rígidos mais baratos e semicondutores que avançavam rapidamente.

A memória Flash eliminou boa parte da justificativa restante. Também era não volátil, não possuía partes móveis e oferecia uma trajetória comercial mais favorável em densidade, custo e integração.

A memória de bolha ficou presa entre duas categorias. Era lenta demais para substituir memória principal e cara demais para competir com armazenamento convencional.

É um exemplo clássico de tecnologia tecnicamente competente que perdeu a guerra econômica.

Não basta funcionar. É preciso continuar melhorando num ritmo compatível com os concorrentes.

A história dos semicondutores é particularmente cruel nesse aspecto. Uma solução pode ser superior no momento da demonstração e tornar-se irrelevante poucos anos depois porque outra tecnologia possui uma curva de desenvolvimento mais rápida.

Os princípios magnéticos não desapareceram. Pesquisas posteriores sobre domínios, paredes magnéticas e memórias do tipo *racetrack* recuperaram ideias relacionadas ao movimento de estruturas magnéticas para armazenar dados.

Mas a memória de bolha como produto comercial cumpriu o destino mais próximo de um fracasso verdadeiro: funcionou, encontrou alguns usos e foi superada antes de construir um ecossistema sustentável.

Transputer: o processador que perdeu, mas descreveu o futuro

No início dos anos 1980, a empresa britânica Inmos propôs uma resposta diferente para o problema do aumento de desempenho. Em vez de construir uma única CPU cada vez mais complexa, seria possível conectar vários processadores relativamente simples e dividir o trabalho entre eles.

O Transputer integrava processamento, memória e canais de comunicação no mesmo componente. Cada unidade poderia trabalhar de maneira relativamente autônoma e trocar informações com outras por conexões seriais.

A própria palavra combinava *transistor* e *computer*. A ambição era transformar o processador num bloco modular de computação paralela.

A ideia parece extremamente familiar em 2026.

Computadores possuem vários núcleos. Placas gráficas reúnem enormes quantidades de unidades de processamento. Sistemas de inteligência artificial distribuem operações entre aceleradores. Data centers são construídos como redes de máquinas cooperando sobre a mesma tarefa.

O Transputer antecipou parte dessa lógica.

Isso não fez dele um sucesso.

Programar sistemas paralelos era difícil, e as ferramentas disponíveis não conseguiram tornar a arquitetura suficientemente acessível. O desempenho também era limitado pela comunicação entre os chips. Dependendo da topologia, informações precisavam atravessar unidades intermediárias, criando congestionamentos e aumentando a latência.

A Inmos enfrentou atrasos no desenvolvimento de gerações posteriores, especialmente do T9000. Enquanto a companhia tentava entregar um salto ambicioso, processadores convencionais avançavam rapidamente em frequência, cache, compiladores e desempenho geral.

A vantagem prometida começou a diminuir antes que o produto estivesse pronto.

O Transputer também exigia que desenvolvedores pensassem de maneira diferente. Software sequencial não se transformava automaticamente em aplicação paralela eficiente. Era necessário dividir tarefas, coordenar dependências e evitar que o custo da comunicação anulasse o ganho do processamento.

Esse problema continua atual.

Possuir oito, dezesseis ou milhares de unidades não garante que um programa utilizará todas de forma eficiente. Algumas tarefas podem ser divididas facilmente. Outras dependem de resultados anteriores e permanecem essencialmente sequenciais.

O Transputer fracassou como plataforma dominante, mas várias de suas ideias sobreviveram. Processamento próximo à memória, comunicação entre unidades, paralelismo explícito e componentes especializados aparecem em chips contemporâneos.

É um caso em que o mercado rejeitou o produto, enquanto a história absolveu parte da arquitetura.

A Inmos estava errada sobre quem venceria. Não estava completamente errada sobre como os computadores evoluiriam.

TV 3D: o futuro que exigia lembrar onde estavam os óculos

A TV 3D foi apresentada como evolução natural depois do sucesso de filmes tridimensionais nos cinemas, especialmente durante a onda iniciada no final dos anos 2000.

Fabricantes precisavam de um novo argumento para convencer consumidores a substituir televisores que já eram grandes, finos e digitais. A tridimensionalidade parecia oferecer uma diferença visível, fácil de demonstrar em lojas e suficientemente futurista para justificar aparelhos mais caros.

O problema começou no momento em que a experiência saiu da demonstração e entrou na sala.

Muitos televisores exigiam óculos ativos, com baterias, sincronização e preço elevado. Outros utilizavam modelos passivos mais simples, mas ainda obrigavam todas as pessoas diante da tela a usar um acessório.

As TVs normalmente eram vendidas com poucos pares. Uma sessão familiar podia exigir compra adicional, recarga, limpeza e a certeza de que ninguém havia perdido os óculos atrás do sofá.

O conteúdo também era limitado. Filmes precisavam ser produzidos ou convertidos em 3D, emissoras precisavam investir em equipamentos e serviços de streaming ainda estavam consolidando a distribuição em alta definição.

A experiência tridimensional de uma sala também não reproduzia o impacto do cinema. A tela ocupava uma parcela menor do campo de visão, o ambiente permanecia iluminado e o espectador estava mais distante.

Em muitos casos, a diferença não justificava o desconforto.

A TV 3D enfrentou ainda um concorrente mais simples: melhorias que funcionavam com qualquer conteúdo. Resolução 4K, HDR, telas maiores, melhor contraste e sistemas inteligentes ofereciam benefícios permanentes, sem exigir que o usuário procurasse um par de óculos antes de assistir.

O mercado escolheu qualidade de imagem generalizada em vez de um efeito utilizado ocasionalmente.

Por volta de 2017, os grandes fabricantes haviam abandonado a função em seus principais televisores. O 3D continuou no cinema, em experiências profissionais, realidade virtual e alguns dispositivos especializados, mas perdeu a batalha da sala doméstica.

O fracasso ensina que uma tecnologia de consumo precisa reduzir atrito, não acrescentar uma cerimônia.

A TV tradicional exige sentar e assistir. A TV 3D exigia equipamento compatível, conteúdo específico, óculos disponíveis e espectadores dispostos a utilizá-los.

Cada exigência parecia pequena. Juntas, tornaram o recurso mais trabalhoso do que valioso.

E-paper: não substituiu o papel, mas construiu um mercado enorme nas bordas

A promessa inicial do papel eletrônico era quase literal: telas flexíveis, finas, baratas e capazes de substituir folhas impressas em livros, jornais, embalagens, paredes e objetos descartáveis.

Uma pessoa poderia carregar uma única publicação física cujas páginas mudariam de conteúdo. Cartazes seriam atualizados remotamente. Jornais digitais poderiam manter a forma familiar do papel.

Essa visão ainda não chegou.

Displays de e-paper continuam mais caros que papel, possuem atualização lenta e enfrentam limitações importantes na reprodução de cores, vídeo e animações. Telas flexíveis existem, mas dobrar ou amassar um leitor eletrônico como uma folha continua sendo uma ótima maneira de conhecer o preço da assistência técnica.

A promessa original fracassou.

A tecnologia, entretanto, encontrou aplicações em que suas limitações se transformam em vantagens.

E-paper consome pouca energia porque normalmente precisa de eletricidade principalmente para alterar a imagem, não para mantê-la visível. Continua legível sob luz solar e não exige iluminação constante da tela.

Isso tornou possível a consolidação de leitores como Kindle e Kobo. Livros possuem conteúdo majoritariamente estático, páginas mudam em intervalos relativamente longos e a autonomia importa mais que a capacidade de exibir vídeo.

Etiquetas eletrônicas em supermercados seguiram a mesma lógica. O preço precisa permanecer visível durante horas ou dias, mas pode ser atualizado remotamente quando necessário. A tela lenta deixa de ser um problema e o baixo consumo torna-se decisivo.

E-paper também aparece em sinalização, crachás, calendários, displays industriais e cartazes digitais.

As tecnologias coloridas avançaram, mas ainda fazem trocas entre saturação, resolução e velocidade. Alguns painéis usam filtros sobre estruturas monocromáticas; outros conseguem cores melhores com atualizações mais lentas.

Não são substitutos universais para LCD ou OLED. Não precisam ser.

O e-paper não chegou a lugar nenhum apenas quando o destino definido era “substituir todo papel”. Ao abandonar essa fantasia, construiu um mercado real.

A tecnologia encontrou sucesso ao aceitar aquilo que fazia bem: exibir conteúdo estático, legível e duradouro usando pouca energia.

Esse é um padrão comum. Produtos fracassam quando tentam disputar todos os usos. Sobrevivem quando encontram uma tarefa cuja combinação de qualidades nenhum concorrente oferece da mesma maneira.

Chips Java: quando o software melhorou mais rápido que o hardware dedicado

Durante a expansão do Java nos anos 1990, sua principal promessa era a portabilidade. O programa seria compilado para uma representação intermediária, o bytecode, executada por uma Máquina Virtual Java disponível em diferentes sistemas.

A ideia foi resumida pela Sun como “escreva uma vez, execute em qualquer lugar”.

Essa independência possuía custo. As primeiras máquinas virtuais eram lentas, e interpretar bytecode acrescentava trabalho entre o programa e o processador.

A solução parecia evidente: criar chips capazes de executar diretamente as instruções Java.

Projetos como picoJava procuravam levar partes da máquina virtual para o hardware. Em vez de um processador tradicional executar uma camada de software responsável por traduzir as operações, o próprio chip compreenderia o bytecode.

No papel, havia vantagens importantes, especialmente para sistemas embarcados e dispositivos dedicados.

O problema era congelar em silício uma plataforma que ainda mudava rapidamente.

Java evoluía, as bibliotecas aumentavam e novas formas de otimização apareciam. Um processador dedicado poderia tornar-se incompatível ou insuficiente antes de recuperar seu custo de desenvolvimento.

Ao mesmo tempo, as máquinas virtuais melhoraram.

Compiladores JIT passaram a observar o código em execução e transformar partes importantes em instruções nativas otimizadas para o processador real. O sistema podia adaptar a compilação ao comportamento do programa e ao hardware disponível.

Processadores de uso geral também ficaram mais rápidos.

A combinação retirou espaço dos chips Java dedicados. Se software conseguia obter bom desempenho em CPUs convencionais, empresas não precisavam adotar uma arquitetura específica, depender de um fornecedor adicional ou correr o risco de incompatibilidade futura.

A ideia não desapareceu completamente. Processadores ARM incorporaram tecnologias como Jazelle, oferecendo suporte para acelerar a execução de bytecode Java em hardware. Era uma abordagem menos radical: adicionar capacidade à arquitetura existente em vez de construir todo o processador ao redor da linguagem.

O episódio revela uma regra importante de projeto: hardware especializado funciona melhor quando o alvo é relativamente estável.

Codecs, criptografia, operações gráficas e matrizes de inteligência artificial possuem padrões que podem justificar circuitos dedicados. Uma plataforma de software em rápida transformação é um alvo muito mais perigoso.

O chip Java tentou capturar uma máquina virtual que continuava correndo.

As seis tecnologias não fracassaram pelo mesmo motivo

Agrupar essas histórias como simples derrotas produz uma narrativa divertida, mas remove justamente a parte mais útil.

A memória de bolha foi superada por alternativas com melhor custo e velocidade de evolução. A TV 3D encontrou rejeição por atrito, falta de conteúdo e benefício limitado. Os chips Java perderam sua justificativa quando o software e os processadores convencionais ficaram mais eficientes.

Esses são fracassos relativamente claros.

Fuzzy Logic e e-paper seguiram outro caminho. As promessas universais foram reduzidas, mas as tecnologias encontraram aplicações especializadas e continuam gerando valor.

O Transputer ocupa uma terceira categoria. A plataforma comercial não venceu, porém sua visão de processamento paralelo reapareceu em formas mais práticas.

Isso cria três tipos de “tecnologia fracassada”:

**A tecnologia substituída**, quando outra solução executa a mesma tarefa de maneira mais barata ou flexível.

**A tecnologia domesticada**, quando abandona o sonho de dominar o mundo e encontra um nicho sustentável.

**A tecnologia absorvida**, quando o produto desaparece, mas suas ideias tornam-se parte de sistemas posteriores.

Chamar todas de fracasso é como dizer que uma expedição não chegou ao destino sem verificar se seus mapas foram utilizados para construir outra estrada.

O mercado não premia a melhor engenharia isoladamente

Engenheiros avaliam desempenho, elegância, eficiência e confiabilidade. Consumidores e empresas avaliam também preço, conveniência, compatibilidade, disponibilidade e risco.

Uma tecnologia pode ser brilhante e comercialmente inviável.

A TV 3D funcionava. O problema era funcionar apenas quando todo o restante também estava preparado. A memória de bolha armazenava dados com resistência física, mas custava demais. O Transputer oferecia paralelismo, mas exigia ferramentas e conhecimentos que o ecossistema ainda não possuía.

O mercado não compra potencial abstrato. Compra soluções dentro de uma rede de condições.

Hardware precisa de software. Formatos precisam de conteúdo. Plataformas precisam de desenvolvedores. Dispositivos precisam de distribuição, suporte e preços aceitáveis.

Quanto maior o número de participantes que precisam agir coordenadamente, maior o risco.

Um fabricante pode lançar uma TV 3D. Não pode obrigar estúdios, emissoras, plataformas, varejistas e famílias a construir todo o restante do mercado no mesmo ritmo.

Tecnologias dependentes de ecossistemas sofrem com um problema circular: consumidores esperam conteúdo; produtores de conteúdo esperam consumidores.

Alguém precisa financiar o intervalo.

O hype costuma confundir possibilidade técnica com adoção inevitável

Uma demonstração responde à pergunta “isso pode funcionar?”. Um mercado precisa responder a várias outras.

Funciona em escala? Quanto custa? Quem instala? Quem mantém? O usuário precisa mudar hábitos? Há compatibilidade com aquilo que já existe? O benefício é frequente ou aparece apenas em situações especiais?

O hype pula diretamente da primeira resposta para a conclusão final.

A indústria atual faz isso com inteligência artificial, computação quântica, interfaces neurais, robôs humanoides, realidade aumentada e veículos autônomos. Protótipos reais são transformados em previsões de adoção generalizada sem que a infraestrutura intermediária tenha sido construída.

Isso não significa que essas tecnologias fracassarão.

Significa que capacidade técnica não é prova suficiente de futuro comercial.

A pergunta mais importante não é apenas o que uma tecnologia consegue fazer. É o que precisa acontecer ao redor dela para que essa capacidade seja economicamente útil.

O tempo pode matar uma boa ideia ou permitir que ela renasça

Algumas tecnologias chegam cedo demais.

O Transputer apareceu quando programar paralelismo era ainda mais difícil e as ferramentas eram limitadas. Conceitos semelhantes tornaram-se inevitáveis quando o aumento da frequência dos processadores encontrou barreiras físicas.

Dispositivos de e-paper flexíveis foram demonstrados antes que materiais, fabricação e mercados estivessem prontos. Décadas depois, algumas aplicações começam a aproximar-se das promessas iniciais.

A TV 3D também pode reaparecer em outra forma. Displays sem óculos, sistemas de rastreamento ocular e conteúdo espacial podem eliminar parte do atrito que destruiu a geração anterior.

Isso não ressuscita automaticamente o produto antigo. Uma ideia pode voltar quando mudanças externas corrigem sua principal fraqueza.

O mercado de tecnologia está cheio de conceitos que fracassaram uma vez e retornaram com outro nome, outro preço ou outra infraestrutura.

Tablets existiram antes do iPad. Assistentes de voz apareceram antes da Alexa. Realidade virtual atravessou várias ondas. Inteligência artificial viveu períodos de entusiasmo e abandono antes da atual expansão.

O fracasso de uma implementação não encerra todas as versões possíveis da ideia.

O que as tecnologias atuais deveriam aprender com esse cemitério

A primeira lição é que diminuir o atrito costuma ser mais importante que aumentar o espetáculo.

A TV 3D oferecia uma experiência chamativa, mas adicionava óculos, conteúdo específico e desconforto. Produtos que exigem mudança profunda de comportamento precisam entregar uma vantagem proporcional.

A segunda é que eficiência econômica derrota elegância técnica.

Memória de bolha possuía características excelentes, mas não acompanhou o custo e a densidade das alternativas. Empresas não compram engenharia bonita para admirar num laboratório.

A terceira é que software flexível pode superar hardware especializado quando o problema ainda está mudando.

Os processadores Java tentaram otimizar uma plataforma antes que ela se estabilizasse. A inteligência artificial vive hoje uma corrida semelhante por aceleradores especializados. Alguns sobreviverão; outros poderão tornar-se chips perfeitos para modelos que o mercado já abandonou.

A quarta é que nichos não são necessariamente derrotas.

E-paper e Fuzzy Logic não dominaram a computação, mas continuam presentes porque resolvem problemas específicos. Nem toda tecnologia precisa tornar-se plataforma universal para justificar sua existência.

A quinta é que conceitos podem vencer sem preservar a marca original.

O Transputer perdeu. O processamento paralelo venceu.

A tecnologia mais perigosa não é a que fracassa

Fracassos visíveis produzem produtos abandonados e investimentos perdidos. Há algo pior: tecnologias adotadas amplamente antes que seus custos sejam compreendidos.

Uma TV 3D esquecida numa sala causa pouco dano além do dinheiro desperdiçado. Uma plataforma incorporada a escolas, governos, hospitais e empresas pode criar dependência, concentração e riscos que permanecem durante décadas.

Por isso, o ceticismo diante do hype não deve significar rejeitar toda novidade. Deve exigir perguntas melhores.

Quem ganha caso a tecnologia seja adotada?

Quem paga pela infraestrutura?

O produto continua útil quando o fabricante abandona o mercado?

Os dados e arquivos podem ser transferidos?

Há benefício real ou apenas uma demonstração impressionante?

Que hábitos precisam mudar?

O sistema resolve um problema existente ou foi criado porque investidores precisam justificar uma nova categoria?

Essas perguntas não impedem inovação. Protegem usuários e empresas de financiar experiências vendidas como inevitabilidades.

Algumas tecnologias morrem; outras apenas param de dar entrevistas

A lista das seis tecnologias mostra que o cemitério digital é menos organizado do que parece.

Memória de bolha, TV 3D doméstica e chips Java dedicados realmente perderam suas disputas principais. O Transputer desapareceu como plataforma, mas antecipou arquiteturas que hoje parecem normais. Fuzzy Logic tornou-se uma ferramenta silenciosa de controle. E-paper encontrou sucesso justamente depois de desistir de substituir todo o papel.

A história não separa perfeitamente vencedores e perdedores.

Produtos desaparecem enquanto suas ideias atravessam gerações. Tecnologias promissoras podem fracassar porque chegaram cedo, custavam demais ou exigiam um ecossistema inexistente. Outras sobrevivem ao aceitar uma função menor do que aquela prometida pelo marketing.

O erro mais comum é medir o futuro pela intensidade do anúncio.

Toda geração acredita estar assistindo ao nascimento de tecnologias inevitáveis. Algumas realmente reorganizarão o mundo. Outras terminarão numa lista nostálgica, acompanhadas pela pergunta mais constrangedora da indústria:

“Como alguém acreditou que isso daria certo?”

A resposta quase sempre é a mesma.

A tecnologia funcionava. O PowerPoint funcionava ainda melhor.

👉 Dúvida? Então veja mais em: [https://pixbugtech.com/linksuteis](https://pixbugtech.com/linksuteis)