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Starlink será usada nas Eleições 2026 para transmitir dados de urnas em áreas remotas do Brasil

A Justiça Eleitoral brasileira recorrerá à internet via satélite nas Eleições Gerais de 2026 para acelerar a transmissão dos resultados de seções localizadas em regiões onde redes convencionais de telecomunicações são inexistentes ou pouco confiáveis.
A infraestrutura utilizada em parte dessa operação será a constelação Starlink, da SpaceX. Mas há uma diferença importante entre isso e a interpretação de que a empresa estaria conectando ou controlando as urnas eletrônicas: a contratação realizada pelo Tribunal Superior Eleitoral é de um serviço de telecomunicações, vencido pela **Hughes Telecomunicações do Brasil**, cuja solução utiliza terminais que operam sobre a rede Starlink.
Na prática, o satélite entra no processo depois que a votação já terminou e a urna produziu seus arquivos de resultado.
E essa diferença técnica muda praticamente toda a discussão.
O que a Starlink realmente fará nas eleições
O planejamento da Justiça Eleitoral prevê a disponibilidade de **até 1.113 terminais satelitais**, destinados principalmente a localidades remotas de estados como Amazonas, Pará, Acre, Roraima e Maranhão. A definição dos pontos efetivamente atendidos cabe aos Tribunais Regionais Eleitorais.
Nesses locais são montados Postos Avançados de Transmissão, conhecidos pela sigla PAT.
Depois do encerramento da votação, a urna realiza internamente a apuração daquela seção e gera o Boletim de Urna, além dos arquivos necessários à Justiça Eleitoral. O equipamento de votação não precisa acessar a internet para executar esse processo.
A transmissão ocorre posteriormente, por equipamentos externos operados pelas equipes eleitorais.
Em algumas dessas estruturas, uma **Starlink Mini e um notebook** estabelecem a conexão com a rede necessária para que os arquivos sejam encaminhados à Justiça Eleitoral.
Portanto, não existe uma ligação do tipo:
**urna → Starlink → contagem dos votos.**
O fluxo é, de forma simplificada:
**urna encerra votação → produz resultado e arquivos → equipe realiza a transmissão → rede da Justiça Eleitoral recebe os dados → ocorre a totalização.**
É uma diferença aparentemente pequena para quem olha apenas para a palavra “internet”, mas enorme do ponto de vista da arquitetura do sistema.
Urnas eletrônicas não serão conectadas à Starlink
Este é provavelmente o ponto mais importante da operação.
A utilização da internet via satélite **não transforma a urna eletrônica em um equipamento conectado à internet**.
Segundo a Justiça Eleitoral, a urna permanece isolada de redes Wi-Fi e Bluetooth e não pode ser acessada remotamente. No Amazonas, por exemplo, o TRE informou que a implantação de antenas Starlink Mini não modifica os mecanismos de segurança dos arquivos produzidos pelo equipamento.
Depois de produzidos, os arquivos são assinados digitalmente. A transmissão à infraestrutura da Justiça Eleitoral utiliza o sistema JE-Connect e conexões criptografadas.
O próprio sistema receptor também verifica elementos de autenticidade dos arquivos antes de aceitá-los. Segundo a Justiça Eleitoral, arquivos sem a assinatura digital esperada são rejeitados pelo programa transportador.
Isso significa que a rede utilizada para transportar os dados não passa a determinar o conteúdo transportado.
É parecido, conceitualmente, com enviar um documento digitalmente assinado por diferentes provedores de internet: trocar a rede de transporte não altera automaticamente a assinatura ou o conteúdo válido do arquivo.
Amazonas terá 420 antenas em regiões de difícil acesso
O tamanho do desafio aparece com clareza no Amazonas.
O Tribunal Regional Eleitoral do estado anunciou a instalação de **420 antenas em locais de votação considerados de difícil acesso**, principalmente em comunidades ribeirinhas, áreas isoladas e aldeias indígenas.
Parintins deverá receber 33 terminais, enquanto São Gabriel da Cachoeira terá 30, segundo informações divulgadas pela Justiça Eleitoral. Itacoatiara aparece com 16 e Atalaia do Norte com 11 equipamentos.
A geografia amazônica torna esse tipo de solução particularmente relevante.
Sem comunicação no próprio local de votação, uma equipe poderia precisar transportar fisicamente a mídia contendo os arquivos da urna por barco, veículo ou até por trajetos combinados até alcançar um ponto capaz de realizar a transmissão.
Em determinadas regiões, isso pode significar horas — ou até dias — adicionais de logística.
Com uma antena portátil que consiga estabelecer comunicação via satélite diretamente daquela comunidade, parte dessa viagem deixa de ser necessária.
Maranhão também terá transmissão diretamente de áreas isoladas
No Maranhão, a Justiça Eleitoral informou que **66 locais de votação** contarão com transmissão dos Boletins de Urna por satélite.
A estrutura deverá atender comunidades em ilhas, aldeias indígenas e outras localidades afastadas dos grandes centros e com infraestrutura limitada de telecomunicações.
Cada ponto contará com equipamentos transportáveis, incluindo antena Starlink Mini e notebook.
O ganho aqui não está na velocidade com que a urna conta os votos — esse processo continua acontecendo localmente —, mas na velocidade com que o resultado daquela seção consegue chegar ao sistema nacional.
É uma distinção importante.
A internet não torna a apuração da urna mais rápida. Ela reduz o gargalo logístico existente **entre a geração do resultado e a transmissão desse resultado**.
Quem contratou quem?
O uso da marca Starlink pode produzir a impressão de que o Tribunal Superior Eleitoral assinou diretamente um contrato com a SpaceX.
Não foi exatamente assim.
O TSE realizou o **Pregão Eletrônico nº 90026/2026** para contratar serviços móveis de transmissão de dados via satélite.
A vencedora foi a **Hughes Telecomunicações do Brasil Ltda.**, que apresentou uma solução que contempla terminais utilizando a infraestrutura Starlink.
Ou seja, Starlink aparece como tecnologia utilizada dentro da solução de conectividade oferecida pela contratada.
Essa diferença contratual importa porque delimita responsabilidades técnicas e administrativas.
Licitação chegou ao Tribunal de Contas da União
A contratação também passou pelo escrutínio do Tribunal de Contas da União.
O processo analisado pelo TCU levantou questionamentos sobre possível direcionamento da licitação, exigências de qualificação técnica e gestão de riscos.
O **Acórdão 2.195/2026 do Plenário do TCU** não confirmou o alegado direcionamento e negou a medida cautelar que poderia interferir no andamento da contratação. O tribunal, entretanto, considerou a representação **parcialmente procedente** e identificou falhas no levantamento de mercado realizado durante o estudo técnico preliminar e em um critério temporal usado para aceitação de atestados técnicos.
Esse detalhe é relevante porque evita duas simplificações opostas.
A primeira seria afirmar que a licitação foi considerada irregular como um todo.
A segunda seria dizer que o TCU não encontrou nenhum problema.
Nenhuma das duas descreve corretamente a decisão.
O tribunal manteve a contratação, não confirmou direcionamento e apontou deficiências específicas no processo administrativo.
O ponto mais sensível não está dentro da urna
Do ponto de vista de segurança, a pergunta interessante não é simplesmente se a palavra Starlink aparece na infraestrutura.
Redes públicas e privadas são utilizadas diariamente para transportar dados protegidos por criptografia. A segurança precisa ser analisada considerando o sistema completo: autenticação, assinatura digital, criptografia, controle de acesso, equipamentos intermediários, configuração dos computadores utilizados e validação realizada no destino.
No processo eleitoral, isso significa separar três camadas diferentes.
A primeira é a **urna**, responsável pelo registro e pela apuração dos votos daquela seção.
A segunda é a **transmissão**, responsável por transportar os arquivos já produzidos.
A terceira é a **totalização**, realizada pela infraestrutura da Justiça Eleitoral.
Misturar essas três etapas cria a impressão de que controlar uma conexão de internet equivaleria a controlar a contagem de votos.
Tecnicamente, são coisas distintas.
Análise da equipe
A adoção de satélites de baixa órbita mostra como um problema aparentemente eleitoral é, na realidade, também um enorme problema de infraestrutura brasileira.
Quando uma comunidade está tão isolada que a Justiça Eleitoral precisa levar uma antena portátil para transmitir poucos arquivos depois da votação, isso diz algo que vai muito além da eleição: revela regiões onde conectividade ainda é exceção, e não infraestrutura básica.
Para a operação eleitoral, a vantagem é bastante objetiva.
Terminais compactos podem diminuir a necessidade de transportar fisicamente mídias durante horas até um ponto conectado à rede, reduzindo tempo, deslocamentos e parte da complexidade logística.
Mas existe outra discussão que merece atenção.
Quanto mais serviços públicos dependem de constelações privadas de satélites, mais relevantes se tornam questões relacionadas a concentração tecnológica, dependência de fornecedores, interoperabilidade, contingência e soberania sobre infraestrutura crítica.
Isso não significa que utilizar Starlink torne o sistema eleitoral dependente da empresa para funcionar ou para contar votos.
Significa que o Estado precisa manter alternativas técnicas para situações em que determinado serviço comercial esteja indisponível.
É uma questão clássica de engenharia de infraestrutura: sistemas críticos precisam sobreviver à falha de componentes individuais.
O que muda nas Eleições 2026
Para quem votará em grandes cidades, provavelmente nada será perceptível.
A mudança acontece nos bastidores e principalmente onde a geografia brasileira transforma telecomunicações em logística.
Em uma aldeia, comunidade ribeirinha ou localidade distante de redes terrestres, uma pequena antena poderá substituir trajetos que antes precisavam ser realizados para encontrar conexão.
A urna continuará fazendo aquilo que já fazia: registrar os votos, encerrar a votação e produzir o resultado da seção.
A inovação está na etapa seguinte.
Em vez de fazer o resultado viajar quilômetros até encontrar a internet, a internet é que chega até o resultado.
E talvez essa seja a parte tecnologicamente mais interessante da história: em 2026, uma constelação de milhares de satélites em baixa órbita estará ajudando a resolver um problema profundamente terrestre — fazer os dados produzidos em alguns dos lugares mais isolados de um país continental chegarem ao sistema nacional sem depender de uma longa viagem física.
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