sonora-materias
SONORA #002 — Slipknot: o caos que aprendeu a usar máscara

O Slipknot nasceu longe dos grandes centros musicais, em Des Moines, Iowa, e transformou anonimato, trauma, percussão, máscaras e fúria em uma das maiores forças do metal moderno. Mas por trás da imagem brutal existe uma história marcada por conflitos, luto, rupturas, reinvenção e sobrevivência. Da formação clássica à chegada de Eloy Casagrande, o Slipknot segue sendo uma máquina instável — e justamente por isso, viva.
---
Algumas bandas parecem nascer de uma cena musical. Outras parecem nascer de um surto.
O Slipknot pertence ao segundo grupo.
Antes de virar uma das maiores bandas de metal do planeta, antes das máscaras, dos números, dos macacões, dos palcos gigantescos e dos fãs chamados “maggots”, o Slipknot era uma ideia estranha surgindo em Des Moines, Iowa, no meio de uma cena local distante dos grandes holofotes.
Não era Los Angeles. Não era Nova York. Não era Londres.
Era o interior norte-americano fabricando uma aberração sonora.
E talvez por isso tenha funcionado.
O Slipknot não parecia uma banda montada para caber no mercado. Parecia uma reação. Uma válvula de escape para raiva, frustração, anonimato, tédio, dor e excesso. Uma banda com guitarras pesadas, DJ, samples, duas percussões, bateria, baixo, vocal rasgado e uma estética visual que parecia dizer: “não olhe para o indivíduo; encare a entidade”.
A máscara, no Slipknot, nunca foi apenas fantasia.
Foi linguagem.
---
O surgimento: Des Moines, 1995
A história oficial costuma apontar 1995 como o ano de formação do Slipknot em Des Moines, Iowa. O núcleo inicial envolve nomes como Shawn “Clown” Crahan, Paul Gray, Joey Jordison e Anders Colsefni, além de outros músicos que passaram pela fase embrionária da banda.
Naquele começo, o grupo ainda não era o monstro que o mundo conheceria. Havia experimentação, trocas de integrantes, nomes anteriores, ensaios caóticos, dívida, tensão criativa e uma busca quase obsessiva por uma identidade própria.
A primeira grande peça dessa fase foi *Mate. Feed. Kill. Repeat.*, lançado de forma independente em 1996. O disco tinha Anders Colsefni nos vocais e uma sonoridade muito mais experimental do que a fase mundialmente conhecida do Slipknot. Havia metal, groove, funk metal, percussão tribal, passagens estranhas e uma sensação de banda tentando descobrir até onde poderia forçar o próprio limite.
Esse álbum não é tratado pela maioria do público como a estreia “oficial” do Slipknot moderno, mas é fundamental para entender o nascimento da criatura. Ali já estavam vários elementos que depois seriam amplificados: percussão, caos, teatralidade, violência sonora e a ideia de que a banda precisava ser mais do que música.
Precisava ser impacto.
A entrada de Corey Taylor foi decisiva. Vindo do Stone Sour, Corey trouxe uma combinação rara de vocal agressivo, melodia, presença de palco e carisma. Com ele, o Slipknot deixou de ser apenas uma experiência extrema local e passou a ter a peça que faltava para furar a bolha.
A assinatura com a Roadrunner Records e o álbum *Slipknot*, de 1999, fizeram o resto.
O mundo não estava preparado.
Mas precisava daquilo.
---
A formação clássica: nove mascarados e um trauma coletivo
A formação que se tornou lendária foi organizada em números, quase como se cada integrante fosse uma peça de uma máquina industrial.
**#0 Sid Wilson** — DJ
**#1 Joey Jordison** — bateria
**#2 Paul Gray** — baixo
**#3 Chris Fehn** — percussão e backing vocals
**#4 Jim Root** — guitarra
**#5 Craig Jones** — samples e teclados
**#6 Shawn “Clown” Crahan** — percussão, conceito visual e direção artística
**#7 Mick Thomson** — guitarra
**#8 Corey Taylor** — vocal
Essa formação transformou o Slipknot em algo impossível de ignorar.
O som não era apenas pesado. Era lotado, claustrofóbico, percussivo e agressivo. A banda parecia grande demais para o próprio palco. Havia sempre a impressão de que alguma coisa poderia sair do controle a qualquer momento.
Mas aí está a contradição central do Slipknot: o caos só funcionava porque havia método.
Joey Jordison era precisão e velocidade. Paul Gray era cola musical e peso. Shawn Crahan era conceito e instinto visual. Corey Taylor era voz e catarse. Mick e Jim formavam a muralha de guitarras. Sid, Craig e Chris expandiam a textura, o ruído, o incômodo e o teatro.
O Slipknot não era apenas uma banda com nove integrantes.
Era uma massa.
---
Discografia: a evolução de uma máquina ferida
A discografia do Slipknot pode ser lida como uma sequência de fases emocionais. Cada álbum documenta não apenas uma mudança sonora, mas também um estado interno da banda.
Mate. Feed. Kill. Repeat. — 1996
O embrião.
Experimental, estranho, irregular e fascinante, *Mate. Feed. Kill. Repeat.* mostra um Slipknot antes de Corey Taylor e antes da explosão mundial. É uma banda ainda procurando forma, mas já carregando a semente do desconforto que viria depois.
Não é o disco mais acessível. Nem o mais icônico. Mas é o porão onde tudo começou.
Slipknot — 1999
A explosão.
O álbum autointitulado de 1999 é o verdadeiro nascimento do Slipknot para o mundo. A banda surge como uma pancada dentro do final dos anos 1990, em um período em que o nu metal, o industrial, o rap metal e o metal alternativo disputavam espaço na cultura jovem.
Mas o Slipknot parecia mais perigoso do que quase tudo ao redor.
O disco mistura raiva, riffs secos, bateria insana, samples, DJ, percussão e um vocal que alternava brutalidade e melodia. Era agressivo, mas também grudava na cabeça. Era extremo, mas tinha refrão. Era pesado, mas tinha identidade pop o suficiente para invadir a MTV, os festivais e o imaginário de uma geração.
Aqui nascem hinos como “Wait and Bleed”, “Spit It Out”, “Surfacing”, “Eyeless” e “(sic)”.
É o disco em que o Slipknot deixa de ser banda e vira fenômeno.
Iowa — 2001
O abismo.
Se o primeiro disco era explosão, *Iowa* é descida.
Mais sombrio, mais pesado, mais sufocante e mais hostil, o segundo álbum mostra o Slipknot rejeitando qualquer tentativa de domesticação. Depois do sucesso, a banda poderia ter suavizado. Fez o contrário.
*Iowa* é o som de uma banda lidando com pressão, excesso, conflito e expectativa. É um álbum difícil, pesado e, em muitos momentos, quase desagradável de propósito.
E justamente por isso se tornou essencial.
O Slipknot provou que não era apenas uma banda mascarada vendável. Era uma entidade disposta a machucar o próprio formato.
Vol. 3: (The Subliminal Verses) — 2004
A abertura.
Depois de pausas, projetos paralelos e tensões internas, o Slipknot retorna com um disco mais variado. *Vol. 3* mostra uma banda que ainda sabia ser brutal, mas que também começava a explorar melodias, estruturas mais abertas e momentos menos claustrofóbicos.
“Duality” virou um dos maiores hinos da banda. “Before I Forget” deu ao Slipknot um Grammy de Melhor Performance de Metal. “Vermilion” mostrou um lado mais dramático e sombrio.
Para alguns fãs, esse disco é a prova de maturidade. Para outros, é o primeiro sinal de que o Slipknot estava mudando.
As duas leituras fazem sentido.
All Hope Is Gone — 2008
O topo comercial e a rachadura interna.
*All Hope Is Gone* levou o Slipknot ao primeiro lugar da Billboard 200, um feito enorme para uma banda tão agressiva. O álbum tem músicas gigantes como “Psychosocial”, “Dead Memories”, “Sulfur” e “Snuff”.
Mas também carrega uma sensação estranha: a de uma banda enorme, vitoriosa, mas internamente desgastada.
É o último álbum com Paul Gray. Também é o último disco de estúdio com Joey Jordison no Slipknot.
O título, olhando em retrospecto, soa quase profético.
.5: The Gray Chapter — 2014
O luto.
Depois da morte de Paul Gray em 2010 e da saída de Joey Jordison em 2013, o Slipknot precisou decidir se ainda existia.
*.5: The Gray Chapter* é a resposta.
O disco é atravessado pela ausência de Paul. Não é apenas uma homenagem formal; é um álbum de perda, raiva, vazio e tentativa de seguir em frente. A entrada de Alessandro “V-Man” Venturella no baixo e Jay Weinberg na bateria marca uma nova fase.
Mas o fantasma da formação clássica está em cada canto.
Esse é o disco de uma banda tentando se reconstruir sem duas de suas colunas originais.
We Are Not Your Kind — 2019
A sobrevivência.
*We Are Not Your Kind* mostra um Slipknot mais maduro, sombrio e experimental. É uma banda que já não precisa provar que é pesada, mas ainda precisa provar que continua relevante.
O álbum chega após nova crise: a saída de Chris Fehn, percussionista de longa data, em meio a disputa judicial envolvendo questões financeiras.
Mesmo assim, o disco foi muito bem recebido e mostrou que o Slipknot ainda conseguia produzir material forte, moderno e emocionalmente denso.
É uma obra de resistência.
The End, So Far — 2022
O encerramento de ciclo.
*The End, So Far* soa como um disco de transição. Não apenas musical, mas institucional. Foi o último álbum da banda pela Roadrunner Records, gravadora que acompanhou a ascensão global do Slipknot desde o fim dos anos 1990.
O título sugere fim, mas também deixa uma brecha: “até agora”.
É um disco que divide opiniões, mas cumpre uma função importante na história: encerra um contrato, uma era e talvez uma forma antiga de operar.
Depois dele, o Slipknot entraria em mais uma fase de mudanças profundas.
---
A fase difícil: morte, ruptura e desgaste
Falar do Slipknot sem falar das crises é contar só metade da história.
A banda sempre viveu em tensão. Desde os primeiros anos, houve conflitos criativos, mudanças de formação, dificuldades financeiras e disputas internas. Mas a fase mais dura começa de verdade em 2010.
A morte de Paul Gray
Paul Gray, baixista e membro fundador, morreu em 24 de maio de 2010, aos 38 anos.
Para o Slipknot, Paul não era apenas “o baixista”. Ele era uma das almas da banda. Um dos pilares de composição, presença e identidade. Sua morte abriu um buraco que nenhum substituto poderia simplesmente ocupar.
A partir dali, o Slipknot deixou de ser a formação clássica intacta.
O impacto emocional aparece diretamente em *.5: The Gray Chapter*. A banda seguiu, mas seguiu marcada.
A saída e a morte de Joey Jordison
Joey Jordison saiu do Slipknot em 2013, em circunstâncias que permaneceram dolorosas e controversas. Depois, ele revelou que enfrentava uma condição neurológica que afetou sua capacidade de tocar por um período.
Joey morreu em 26 de julho de 2021, aos 46 anos.
Sua morte fechou de maneira trágica um capítulo que já estava mal resolvido. Para muitos fãs, Joey não era apenas o baterista original. Era o motor do Slipknot. O músico que ajudou a definir a velocidade, a precisão, a agressividade e a arquitetura rítmica da banda.
Com Paul morto e Joey fora — e depois também morto —, o Slipknot passou a carregar dois fantasmas permanentes.
Chris Fehn, Craig Jones e Jay Weinberg
As crises não pararam aí.
Chris Fehn deixou a banda em 2019 após uma disputa judicial envolvendo alegações financeiras. Craig Jones, responsável por samples e teclados desde a fase clássica, saiu em 2023, com uma comunicação curta e sem grande explicação pública. No mesmo ano, Jay Weinberg, que havia assumido a bateria na fase pós-Joey, também foi desligado.
Cada saída mexeu com a sensação de continuidade.
O Slipknot sempre foi uma entidade maior que os indivíduos, mas essa ideia tem limite. Quando integrantes históricos vão embora, morrem ou são substituídos, o público começa a perguntar: ainda é a mesma banda?
A resposta talvez seja desconfortável:
Não exatamente.
Mas talvez o Slipknot nunca tenha sido feito para permanecer igual.
---
Eloy Casagrande: o brasileiro dentro da máscara
E então veio Eloy Casagrande.
Para o público brasileiro, a entrada de Eloy no Slipknot não é apenas uma troca de baterista. É um evento histórico.
Eloy vinha de uma trajetória respeitadíssima no Sepultura, onde consolidou uma reputação como um dos bateristas mais fortes, técnicos e físicos do metal contemporâneo. Sua chegada ao Slipknot foi confirmada em 2024 e colocou um brasileiro no centro de uma das maiores máquinas de metal do mundo.
Isso muda tudo.
Porque Eloy não entrou em qualquer posição. Ele entrou no lugar mais simbólico da banda depois de Joey Jordison. A bateria do Slipknot não é apenas um instrumento; é o coração mecânico do caos. É o ponto onde violência, precisão, groove e resistência física se encontram.
Jay Weinberg havia cumprido um papel importante ao segurar a fase pós-Joey e gravar três álbuns com a banda. Mas Eloy entra com outro peso: o de alguém que já era visto como monstro técnico antes mesmo de vestir a máscara.
A chegada dele também coincide com a celebração dos 25 anos do álbum de 1999. Ou seja: Eloy entra justamente quando o Slipknot volta a olhar para sua própria origem.
É quase simbólico.
Um brasileiro assume a bateria enquanto a banda revisita o disco que a transformou em fenômeno mundial.
Eloy não precisa imitar Joey. Essa seria uma armadilha.
O papel dele é outro: honrar a brutalidade original, sustentar o repertório clássico, trazer sua própria assinatura e provar que o Slipknot ainda pode soar perigoso ao vivo.
Pela primeira vez, um brasileiro não está apenas no meio da multidão levantando a mão.
Um brasileiro está dentro da máscara.
---
Os membros: passado, presente e permanência
O Slipknot sempre foi difícil de organizar porque sua identidade mistura pessoas reais, números, personagens e funções.
Da formação clássica, os nomes mais emblemáticos são Corey Taylor, Sid Wilson, Joey Jordison, Paul Gray, Chris Fehn, Jim Root, Craig Jones, Shawn Crahan, Mick Thomson.
Com o tempo, a banda passou por substituições importantes:
Alessandro “V-Man” Venturella assumiu o baixo na fase pós-Paul Gray. Jay Weinberg assumiu a bateria na fase pós-Joey Jordison e gravou três álbuns com o grupo. Michael Pfaff entrou na percussão após a saída de Chris Fehn. Depois, Eloy Casagrande assumiu a bateria após a saída de Jay.
Shawn “Clown” Crahan permanece como o grande elo com a origem. Ele é a memória visual, conceitual e institucional da banda.
Corey Taylor segue como voz e rosto público.
Mick Thomson e Jim Root continuam sustentando a massa de guitarras.
Sid Wilson mantém o elemento de DJ, ruído e caos eletrônico.
V-Man e Pfaff representam a fase pós-formação clássica.
Eloy representa o novo capítulo.
O Slipknot atual não é mais a mesma banda de 1999. Isso seria impossível.
Mas ainda é Slipknot porque preserva a ideia central: uma máquina coletiva, mascarada, agressiva, instável e catártica.
---
O contexto: por que o Slipknot ainda importa?
O Slipknot surgiu em uma época em que o metal estava mudando.
No fim dos anos 1990, o nu metal explodia, a MTV ainda tinha força, festivais como o Ozzfest ajudavam a lançar bandas pesadas para multidões, e o público jovem buscava sons que misturassem raiva, imagem forte e identificação emocional.
Mas o Slipknot foi além da estética do momento.
Enquanto muitas bandas daquela geração ficaram presas à própria época, o Slipknot criou uma mitologia. Máscaras, números, símbolos, fãs com nome próprio, shows como experiência física, discos com identidade visual forte e uma relação quase tribal com o público.
A banda não vendeu apenas música.
Vendeu pertencimento para quem se sentia deslocado.
E isso explica por que o Slipknot sobreviveu a tantas perdas.
Mesmo quando membros saem, mesmo quando a formação muda, mesmo quando o público questiona decisões internas, a marca emocional continua forte. O Slipknot virou uma linguagem para raiva, luto, adolescência, exclusão, catarse e reconstrução.
É uma banda que fala com o caos de quem escuta.
---
Conclusão: a máquina continua respirando
O Slipknot sempre foi uma contradição viva.
Uma banda sobre descontrole que só funciona porque existe disciplina. Uma banda mascarada que revelou dores muito humanas. Uma banda coletiva que perdeu partes essenciais de si mesma. Uma banda acusada muitas vezes de não ser mais a mesma, mas que continua atraindo multidões como se ainda houvesse algo perigoso ali.
Paul Gray e Joey Jordison não são substituíveis.
Eles permanecem como fantasmas fundadores da máquina.
Mas o Slipknot nunca foi sobre conforto. Nunca foi sobre estabilidade. Nunca foi sobre manter tudo intacto.
O Slipknot é sobre transformação violenta.
E agora, com Eloy Casagrande na bateria, a história ganha um capítulo especial para o Brasil. Não como curiosidade nacionalista barata, mas como reconhecimento real: um músico brasileiro chegou ao centro de uma das bandas mais importantes do metal moderno.
O caos aprendeu a usar máscara.
E, mesmo ferido, ainda respira.
---
Discografia essencial
• *Mate. Feed. Kill. Repeat.* — 1996
• *Slipknot* — 1999
• *Iowa* — 2001
• *Vol. 3: (The Subliminal Verses)* — 2004
• *All Hope Is Gone* — 2008
• *.5: The Gray Chapter* — 2014
• *We Are Not Your Kind* — 2019
• *The End, So Far* — 2022